sexta-feira, 28 de setembro de 2012

OLHOS FECHADOS

O instituto de cegos do exterior era uma ótima chance de passar a ver o mundo. – Um instante senhor. – Ok. Lá estavam os equipamentos e pessoal técnico, recursos necessários à abertura de novos horizontes. Ligou mais uma vez, sua admissão ainda não havia sido confirmada, era preciso esforço e determinação. Tudo incomodava nestes últimos dias, uma frase, um comportamento, até o dia a dia normal de todos nós já incomodava por sua naturalidade, sua aceitação sem perguntas no mundo de todos nós. Ligar a televisão nem pensar. Era assim mesmo há tempos, só que naquela época, no início, o incômodo não era totalmente percebido em sua integralidade. Era sequer entendido como sendo incômodo, parecia mais uma exceção à regra, algo que não sabemos explicar bem e decidimos não olhar mais. Tinha que curar-se, era uma questão importante demais para ser relegada a mero interesse no que poderia dar. Era seguir vivendo e achando tudo muito normal ou ter a coragem de erguer-se e, se caísse, levantaria uma, duas, três vezes até manter-se erguido e poder caminhar mais livremente, menos ancorado, mais ágil. Tinha um plano,queria posto em prática e fazê-lo decolar. Lembrou de seu primeiro voo, era bem pequenino. Naquela noite dormiu a maior parte do tempo, por alguns minutos,levantou a cabeça do travesseiro, sentia-se flutuar e passou admirando o entorno, olhar tudo lá de cima, imaginar que havia um acima, pois aquele ponto de vista não era a mesma coisa que subir no armário. Teve medo no início, mas acostumou-se e agora queria voltar a sentir-se assim, leve e no caminho certo.

Estava lendo muito, procurando por alguma coisa. Ler, ler,ler, mesmo que tateando seu caminho, era um mantra digno e acessível a qualquer um. Quanto mais cego, aquele menos propenso à cura, casos mais difíceis e tal,mais era preciso ler, pesquisar, quebrar paradigmas. Qualquer limitação é um desafio, um convite à ousadia, à criatividade. A recompensa pode ser uma vida mais inteira, mais de fato, e porque não, feliz. A sensibilidade estava aguçada a ponto de ficar viciado em pesquisar e tentar entender mais sobre o que o incomodava e possíveis níveis de cura. Pensava que os cegos que iria encontrar,os cegos do exterior, não eram cegos porque queriam, mas poderiam vir a ser menos cegos se quisessem. E era isso que interessava, era mensurável, era promissor e não era preciso retirar de sua vida qualquer das coisas conquistadas. Acabava que tinha uma vida. Era boa, havia êxitos, amor,projetos, era promissora. Mas não era o bastante, pois assim seria igual a qualquer outro que iria tratar, aqueles que pouco enxergam, vivem limitados,condicionados, sem explorar novas possibilidades, incluindo os que tem dinheiro suficiente ou até muito mesmo. Tinha para ele que deveria ser fiel a sí mesmo,ao seu potencial. Não poderia ser diferente, apesar do medo e da dificuldade em encontrar respostas mais imediatas que atendessem às necessidades prementes que nasciam do simples acordar, se alimentar, dormir e acordar novamente. Trabalhar, pagar contas e namorar garotas eram coisas que fazia, como qualquer um que via menos ou mais que ele também o faz. No fundo, ainda tinha medo, um pouco de insegurança a partir do desconhecido. Queria manter-se produtivo e integrado ao mundo que já conhecia. Mas havia um outro mais cintilante e, no fundo, mais fidedigno a quem era, sabia que era e queria ser. Ele era alguém que enxergava e ia além no mundo dos cegos.

Sempre o incomodou o fato de que o sucesso no mundo dos cegos era superficial, mas era de qualquer forma sucesso. E quanto mais cego,parecia que mais sucesso fazia. Será que a aceitação irrestrita ou restrita da cegueira era um bom caminho, por mais que houvessem muitos fatores indicando a necessidade de lutar? Aceitar a cegueira da vida parecia ser um dogma, uma espécie de barreira cultural, uma lei praticamente inviolável até recentemente, quando começaram a surgir cegos que não admitiam mais não ver. Haviam bem sucedidos que eram meio-cegos, tinham uma visão, ou parte de uma visão. Alguns não tinham visão também, mas eram muito sensíveis e inclinados a ver mais que outros tantos. Estes eram cada vez mais a imensa maioria. Cegos com posição política, religiosos cegos, diretores cegos, investidores cegos, empresários cegos, profissionais cegos de todos os tipos. E como o sucesso dos cegos era mais notado pelos próprios cegos, parecia que o sucesso dos cegos era para os cegos verem. E na maioria das vezes, aqueles que viam não interessavam muito aos cegos. É claro que à noite, quando colocamos nossas cabeças no travesseiro e fechamos os olhos, somos todos iguais. Nesse momento, todo cego vê o mundo como quem enxerga além do mundo dos cegos também. 


O som era melódico o suficiente para uma espera minimamente confortável, mais uma. Meditara pela manhã. Fazia um mês que vinha se esforçando para controlar a ansiedade, era tanta que parecia correr em suas veias, deturpar seus movimentos, enfraquecer o corpo. Queria soluções, entradas mais que saídas. Ao meditar também somos todos iguais, olhos fechados são niveladores maravilhosos. O braço já estava dormente quando uma voz o acordou. –Sim, disse o jovem médico. – O senhor foi admitido, o aguardamos para início nessa segunda-feira, sua equipe o espera e já temos uma operação espiritual marcada para as 9h da manhã. – Obrigado.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O JEJUM

O jejum é um voluntário de escola pública. Na ânsia de completar sua missão, dada a ausência de centros de caridade conhecidos seus, aparece um dia às 06:06 da manhã no portão da escola municipal. Faz frio, chove fininho, o estômago encolhe de pesar pelas crianças sem casaco que serpenteiam à sua direita: passam todas pelo portão, pisando na poça d’água. A dor que sente revela o quão funda é a alma do voluntário da escola pública. Cansou de esperar e precisa fazer alguma coisa. Mas não arredará o pé enquanto não conseguir falar com alguém. Com qualquer um, com ninguém. Pode ser um servente, um inspetor, uma atendente de lanchonete, uma professora, uma secretária, até uma Diretora. Quer ser ouvida. Quer dividir a sua transcendência. Afinal, veio de longe um pouco, com a melhor das intenções: doar-se. Ser humano é difícil, mas ser voluntário é demais – e uma coisa é degrau para a outra e vice-versa. São 07:14. À espera, continua, mas nenhum sinal de que a atenderão. Parece que não tem fim, mas tem. Bastaria ela irritar-se um pouco, levantar o queixo, abrir bem os olhos e, ao adentrar a sala – qualquer sala, dizer que o que mais quer é ser voluntária, mas que ninguém lhe dá a mínima. A olhariam perplexos, no mínimo, sentindo um misto de estranheza e vergonha diante daquela que parece ser a mais cândida das criaturas. Mas, não. Como mirará os olhos desses meninos e meninas que brincam de estudar e estudam para depois brincar; não. Sentiria-se liberta por um instante, mas provocaria o que já viu muitas vezes acontecer nas melhores famílias do bairro. Provocaria mais um curto-circuito. E curtos-circuitos não cheiram lá muito bem depois que o clarão passa. Fica no ar um jeito de remendo, uma coisa que errada. Não se perdoaria, jamais. Chegara tão perto de ser uma voluntária, de vestir a camiseta branca, alva de quem nunca foi lavada. Ou até de quem foi muitas e tantas vezes lavada, dado que serviu a outros voluntários predecessores. Já varrera chão, catara brinquedos, lavara louça, limpara banheiros, assoara narizes, empilhara cadeiras, requentara cafés. Não, não por tão pouco. Estava prestes a tornar-se imortal. Pensou que não tinha muitos pecados na vida. Mas que aqueles que tinha, iríam-se com o voluntariado. Sabia que nada poderia impedí-la uma vez que permanecesse ali, sem arredar pés ou pestanejar. Tinha que conseguir e conseguiria. As árvores agora balançavam e faziam notar a passagem do tempo com as folhas que caiam amarelas. Até as folhas estavam amarelas, imagina ela que tomara um copo de leite quente, antes de sair de casa, às 04h40 da manhã. Estava esmaecida, a futura voluntária. Futura não! Bradou ela ao ouvir que talvez não o viesse a ser, devido apenas a uma tecnicalidade chamada tempo. Sim, o tempo. O tempo cura tudo. Nada mais a fazer, senão esperar. Nada mais a reclamar, apenas coisas a consentir. Ninguém mais a aturar, apenas gente a sorrir e ajudar. Queria ajudar faz tempo. Passam três senhoras, prováveis mães de alunos da escola. Chegam enfeitadas e perfumadas. Pelos gestos e algumas palavras entreouvidas, querem reclamar de coisas da escola. Talvez uma sala de aula sem equipamento. Ou um banheiro sem o devido trato. Mais importante ainda, uma indelicadeza de funcionário menos consciencioso de sua posição, dever e missão. Anima-se, pois pode ser sua chance, finalmente. Avança, dribla uns dois alunos de ensino médio, curvando-se para não esbarrar em suas mochilas e, já quase no círculo da conversa, dispara – Com licença, posso ajudá-las? Sou voluntária.

A REALIDADE DE VALENTINA

Eram quase dez horas e o pensamento de perder sua primeira aula na universidade não passava pela cabeça da jovem Valentina – apesar de tudo indicar que realmente chegaria atrasada. A maratona de exercícios físicos a que vinha se submetendo há apenas dois meses era extenuante, porém sua condição mental hiperativa equilibrava-se em uma paz e bem-estar recém conquistados por ela. O médico do posto de saúde acertara. Agora, dormia bem, alimentava-se sem excessos e sentia que tinha pensamentos ordenados como nunca antes na vida. O momento parecia perfeito: os tão desejados dezoito anos chegaram presenteando-a com êxito no Enem e a vaga na faculdade pública de letras. Num sopro, a vida apresentava-se repleta de novas emoções. O ônibus saculejava e as formas-pensamento pareciam acomodar-se àquele movimento não determinístico. Dobrava uma rua, a mente acompanhava aceitando e criando possibilidades. Carros em ziguezague, pessoas sem parar, buzinas e roncos, falas próximas e movimentos labiais pareciam acontecer primeiro em sua cabeça, depois numa dança física embalada por um vento quente quase ininterrupto. Mal os pneus descolavam do asfalto e alguém pedia para descer, outro subia, e assim ideias seguiam trocando de lugar com pessoas. A janela embaçada refletia a luz do sol e cristalizava pontos coloridos que pareciam pequenos diamantes ali colados. Enquanto metabolizava um duplo sanduíche de atum ralado no pão de forma com pouca maionese e um suco de laranja com gelo, o corpo descansava e agradecia o calor gostoso da manhã. – Anjos moram no sol, você sabia? Não, disse Valentina. A amiga continuou falando, tecendo considerações sutis sobre terceira e quarta dimensões aqui na terra e que lá naquele pontinho amarelo moravam seres de luz que eram puro amor. – É, faz sentido, concluiu Valentina, ao mesmo tempo que um sinal verde entrava em colapso, amarelo, vermelho, e sua atenção fixou-se em quem atravessava a rua: pisavam aleatoriamente, ora em listras brancas, ora na ausência delas, as listras pretas (como insetos pousando numa zebra sem saber dizer se encontram-se num animal branco listrado de preto ou num animal preto listrado de branco). Ela mesma, com mãe evangélica e pai católico, ainda não chegara a conclusão alguma sobre sua condição existencial – afinal, era um ser espiritual vivendo uma experiência carnal ou um ser carnal em busca do espiritual? Lembrou que seu pai, apesar de velho, também tinha lá suas dúvidas. Se era a pobreza que gerava ignorância ou se era a ignorância que gerava pobreza. E pedia aos filhos que estudassem para não ficarem ignorantes e acabarem pobres, e que trabalhassem o quanto antes para poderem poupar e nunca admitissem pensar em pobreza sequer uma vez no dia. Notou algumas crianças de uniforme, e logo procurou o relógio de rua: seu irmão estava fazendo prova naquele exato momento. Por força do hábito, começou a rezar um pai nosso, pois o garoto precisava permanecer na escola pública ou não teria com quem ficar durante o dia até a mãe sair do trabalho. Pai nosso que estás no Céu... mal começara e uma enxurrada de imagens projetava-se em sequência. Pipas e nuvens, velas acesas, beijo de mãe saindo pro trabalho, o final da novela, menino novo na rua, o domingo com a vovó, calça furada, menstruação descendo, o treino da manhã... O ônibus freou bruscamente destacando a imagem de uma boa cortada que dera no segundo tempo, seguida do olhar elogioso do treinador. – Vocês criam sua história de vida, sabiam? A mensagem do dia, sempre transmitida no final de cada treino, continha sincero afeto e torcida. – Visualizem o que querem, acreditem, hajam. Era o que ela vinha fazendo na base da intuição, e hoje sentia-se especialmente confiante e criativa. ...Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu... A ideia de um senhor de barbas e túnica branca sentado o dia inteiro numa nuvem, olhando por todos aqui embaixo, ora cuidando, ora castigando, conforme nossos comportamentos, parecia inventada demais para ser a realidade. Seu irmão já estava em sua mente, inteiro. E a ele diretamente ela dirigia pensamentos de afeto e palavras de boa sorte. Esse ato, sim, lhe parecia mais com a descrição de Deus. Beijou o irmão, acariciou-o envolvendo seu corpo em amor (como os anjos que moravam no sol fazem) e o viu saltar de alegria e abraçar os pais por ter conseguido atender o pedido de permanecer na escola do bairro. Sua mãe alegrava-se pela economia da passagem de ônibus e beijava a cabeça do garoto, olhando agradecida a filha por sua intenção manifesta. Continuou rezando e lembrou do sanduíche de atum, que a essa altura lhe parecia mais com braços, pernas e pensamentos que com alimento recomendado para o pós-treino. As primeiras mordidas supriram com eficiência agachamentos e outros movimentos preparatórios. As seguintes, maiores devido à altura exagerada do miolo de três pães de forma com recheio duplo de atum ralado e pouca maionese, pareciam voltar no tempo e fazê-la bater forte na bola, pular e bloquear com a agilidade necessária, permitir imaginar antecipadamente os ataques do outro time. A segunda metade inteira, se ela realmente estivesse criando sua própria história, encontrava-se naquele instante guardada por um transbordante ânimo adolescente ancorado em uma nova consciência amplificada e interessada em trabalhar oportunidades possíveis: logo iria transformar-se em sorrisos e perguntas no seu primeiro dia de aula.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O AMOR

O amor é um zelador de prédio em Copacabana. Acorda cedo todos os dias e toma um banho quente, porém rápido. Uma choveirada fria no final. Segue com um café da manhã frugal: pão com manteiga, café preto e uma fatia de queijo. Precisa da medida certa de energia para o dia. Nem muita, nem pouca. Veste seu traje limpo e bem passado. Banha-se de lavanda pós-barba no rosto já liso, beija as crianças ainda na cama, faz uma cafungada na mulher. Lança seu olhar matinal ardente e diz para esperá-lo na hora do almoço. Agora, distinto e reconhecível, está pronto para assumir seu posto na portaria do prédio. Caminha pelo corredor extenso, madeira no piso, estalado atrás de estalado anuncia sua alvorada. Abre a porta dos fundos e chega a sua estação de comando. As paredes são de mármore, os detalhes das colunas em marfim, algo entre 1920 e 1930. Talvez o síndico saiba, dado que sua família construiu o prédio, e a gestão costuma permanecer entre as próximas gerações. Precisamente às 07:07, abre a porta do hall de entrada. Sente uma brisa fresca, quase fria, entrar. A camiseta branca por debaixo da camisa do uniforme cumpre o seu papel. Desce os três degraus que levam ao pequeno pátio interno na frente do edifício. Vai até o portão da grade e confere, está fechado. Abre a caixa de correio original do prédio, preta com detalhes dourados. Passa, da esquerda para a direita, uma distinta senhora com seu bulldog francês a caminho da padaria da esquina. Cumprimentam-se com uma pompa datada da juventude dos dois. Fica no ar um perfume da mesma época. A brisa, que agora sopra mais forte, leva o perfume até o outro lado da rua. O tempo está fechado e é possível que chova. Os canteiros do pátio perfazem um jardim verde, que confere à edificação charme à parte. Nove passarinhos pululam entre um arbusto e outro; uma revoada com vinte e um deles desce do hibisco central do pátio. O chão está vivo. Passa agora um senhor de terno cinza levemente riscado de cinza mais claro, gravata azul, com seu cabelo grisalho penteado com precisão, o jornal dobrado à mão esquerda. O cavalheiro acena com o jornal e comenta o tempo. Vai chover. O zelador fala algo entre gracioso e elegante, coisas de homens de outros tempos. Com as mãos cheias de envelopes, atravessa o pátio, sorri para os passarinhos, que o cumprimentam de volta, levantando voo para que passe, e descendo imediatamente para onde estavam. Os degraus não parecem mais os mesmos, transformados por um raio de sol que aponta para a portaria e, refletido nas janelas de cristal, retorna amarelado pela pedra porosa. Certifica-se que a porta está firme e permanecerá aberta, apesar do vento, que começa a soprar. Dirige-se à grande mesa de madeira escura da portaria, puxa a cadeira de espaldar alto e ajeita junto ao encosto uma almofada sobre o couro vermelho bispo. Senta-se com a coluna hereta. Coloca sobre a mesa os envelopes e organiza-os todos por apartamento: água, luz, condomínio, telefone, net, sky, banco, envelope em mãos e revistas. Agora, a mesa com cantos arredondados e bordas chanfradas à maestria, está toda tomada por envelopes de todos os tamanhos, em sua maioria brancos com detalhes coloridos. Há duas gavetas, a da direita e a da esquerda. Abre primeiro a da esquerda e retira as correspondências recebidas no dia anterior e ainda não entregues aos apartamentos. Abre a gaveta da direita. Retira um caderno de capa preta, com elástico preto. Puxa cuidadosamente o elástico até a borda para poder abrir o caderno. Passa os olhos em suas anotações do dia anterior para este dia. Está preparado. Será um dia maravilhoso.