O amor é um zelador de prédio em Copacabana. Acorda cedo todos os
dias e toma um banho quente, porém rápido. Uma choveirada fria no final. Segue
com um café da manhã frugal: pão com manteiga, café preto e uma fatia de
queijo. Precisa da medida certa de energia para o dia. Nem muita, nem pouca.
Veste seu traje limpo e bem passado. Banha-se de lavanda pós-barba no rosto já
liso, beija as crianças ainda na cama, faz uma cafungada na mulher. Lança seu
olhar matinal ardente e diz para esperá-lo na hora do almoço. Agora, distinto e
reconhecível, está pronto para assumir seu posto na portaria do prédio. Caminha
pelo corredor extenso, madeira no piso, estalado atrás de estalado anuncia sua
alvorada. Abre a porta dos fundos e chega a sua estação de comando. As paredes
são de mármore, os detalhes das colunas em marfim, algo entre 1920 e 1930.
Talvez o síndico saiba, dado que sua família construiu o prédio, e a gestão
costuma permanecer entre as próximas gerações. Precisamente às 07:07, abre a
porta do hall de entrada. Sente uma brisa fresca, quase fria, entrar. A
camiseta branca por debaixo da camisa do uniforme cumpre o seu papel. Desce os
três degraus que levam ao pequeno pátio interno na frente do edifício. Vai até
o portão da grade e confere, está fechado. Abre a caixa de correio original do
prédio, preta com detalhes dourados. Passa, da esquerda para a direita, uma
distinta senhora com seu bulldog francês a caminho da padaria da esquina.
Cumprimentam-se com uma pompa datada da juventude dos dois. Fica no ar um perfume
da mesma época. A brisa, que agora sopra mais forte, leva o perfume até o outro
lado da rua. O tempo está fechado e é possível que chova. Os canteiros do pátio
perfazem um jardim verde, que confere à edificação charme à parte. Nove
passarinhos pululam entre um arbusto e outro; uma revoada com vinte e um deles
desce do hibisco central do pátio. O chão está vivo. Passa agora um senhor de
terno cinza levemente riscado de cinza mais claro, gravata azul, com seu cabelo
grisalho penteado com precisão, o jornal dobrado à mão esquerda. O cavalheiro
acena com o jornal e comenta o tempo. Vai chover. O zelador fala algo entre
gracioso e elegante, coisas de homens de outros tempos. Com as mãos cheias de
envelopes, atravessa o pátio, sorri para os passarinhos, que o cumprimentam de
volta, levantando voo para que passe, e descendo imediatamente para onde
estavam. Os degraus não parecem mais os mesmos, transformados por um raio de
sol que aponta para a portaria e, refletido nas janelas de cristal, retorna
amarelado pela pedra porosa. Certifica-se que a porta está firme e permanecerá
aberta, apesar do vento, que começa a soprar. Dirige-se à grande mesa de
madeira escura da portaria, puxa a cadeira de espaldar alto e ajeita junto ao
encosto uma almofada sobre o couro vermelho bispo. Senta-se com a coluna
hereta. Coloca sobre a mesa os envelopes e organiza-os todos por apartamento:
água, luz, condomínio, telefone, net, sky, banco, envelope em mãos e revistas.
Agora, a mesa com cantos arredondados e bordas chanfradas à maestria, está toda
tomada por envelopes de todos os tamanhos, em sua maioria brancos com detalhes
coloridos. Há duas gavetas, a da direita e a da esquerda. Abre primeiro a da
esquerda e retira as correspondências recebidas no dia anterior e ainda não
entregues aos apartamentos. Abre a gaveta da direita. Retira um caderno de capa
preta, com elástico preto. Puxa cuidadosamente o elástico até a borda para
poder abrir o caderno. Passa os olhos em suas anotações do dia anterior para
este dia. Está preparado. Será um dia maravilhoso.
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