Eram quase dez horas e o pensamento de perder sua primeira aula na
universidade não passava pela cabeça da jovem Valentina – apesar de tudo
indicar que realmente chegaria atrasada. A maratona de exercícios físicos a que
vinha se submetendo há apenas dois meses era extenuante, porém sua condição
mental hiperativa equilibrava-se em uma paz e bem-estar recém conquistados por
ela. O médico do posto de saúde acertara. Agora, dormia bem, alimentava-se sem
excessos e sentia que tinha pensamentos ordenados como nunca antes na vida. O
momento parecia perfeito: os tão desejados dezoito anos chegaram presenteando-a
com êxito no Enem e a vaga na faculdade pública de letras. Num sopro, a vida
apresentava-se repleta de novas emoções. O ônibus saculejava e as
formas-pensamento pareciam acomodar-se àquele movimento não determinístico.
Dobrava uma rua, a mente acompanhava aceitando e criando possibilidades. Carros
em ziguezague, pessoas sem parar, buzinas e roncos, falas próximas e movimentos
labiais pareciam acontecer primeiro em sua cabeça, depois numa dança física
embalada por um vento quente quase ininterrupto. Mal os pneus descolavam do
asfalto e alguém pedia para descer, outro subia, e assim ideias seguiam
trocando de lugar com pessoas. A janela embaçada refletia a luz do sol e
cristalizava pontos coloridos que pareciam pequenos diamantes ali colados.
Enquanto metabolizava um duplo sanduíche de atum ralado no pão de forma com
pouca maionese e um suco de laranja com gelo, o corpo descansava e agradecia o
calor gostoso da manhã. – Anjos moram no sol, você sabia? Não, disse Valentina.
A amiga continuou falando, tecendo considerações sutis sobre terceira e quarta
dimensões aqui na terra e que lá naquele pontinho amarelo moravam seres de luz
que eram puro amor. – É, faz sentido, concluiu Valentina, ao mesmo tempo que um
sinal verde entrava em colapso, amarelo, vermelho, e sua atenção fixou-se em
quem atravessava a rua: pisavam aleatoriamente, ora em listras brancas, ora na
ausência delas, as listras pretas (como insetos pousando numa zebra sem saber
dizer se encontram-se num animal branco listrado de preto ou num animal preto
listrado de branco). Ela mesma, com mãe evangélica e pai católico, ainda não
chegara a conclusão alguma sobre sua condição existencial – afinal, era um ser
espiritual vivendo uma experiência carnal ou um ser carnal em busca do
espiritual? Lembrou que seu pai, apesar de velho, também tinha lá suas dúvidas.
Se era a pobreza que gerava ignorância ou se era a ignorância que gerava
pobreza. E pedia aos filhos que estudassem para não ficarem ignorantes e
acabarem pobres, e que trabalhassem o quanto antes para poderem poupar e nunca
admitissem pensar em pobreza sequer uma vez no dia. Notou algumas crianças de
uniforme, e logo procurou o relógio de rua: seu irmão estava fazendo prova
naquele exato momento. Por força do hábito, começou a rezar um pai nosso, pois
o garoto precisava permanecer na escola pública ou não teria com quem ficar
durante o dia até a mãe sair do trabalho. Pai nosso que estás no Céu... mal começara e uma enxurrada de
imagens projetava-se em
sequência. Pipas e nuvens, velas acesas, beijo de mãe saindo pro trabalho, o
final da novela, menino novo na rua, o domingo com a vovó, calça furada,
menstruação descendo, o treino da manhã... O ônibus freou bruscamente
destacando a imagem de uma boa cortada que dera no segundo tempo, seguida do
olhar elogioso do treinador. – Vocês criam sua história de vida, sabiam? A
mensagem do dia, sempre transmitida no final de cada treino, continha sincero
afeto e torcida. – Visualizem o que querem, acreditem, hajam. Era o que ela
vinha fazendo na base da intuição, e hoje sentia-se especialmente confiante e
criativa. ...Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu... A ideia
de um senhor de barbas e túnica branca sentado o dia inteiro numa nuvem,
olhando por todos aqui embaixo, ora cuidando, ora castigando, conforme nossos
comportamentos, parecia inventada demais para ser a realidade. Seu irmão já
estava em sua mente, inteiro. E a ele diretamente ela dirigia pensamentos de
afeto e palavras de boa sorte. Esse ato, sim, lhe parecia mais com a descrição
de Deus. Beijou o irmão, acariciou-o envolvendo seu corpo em amor (como os
anjos que moravam no sol fazem) e o viu saltar de alegria e abraçar os pais por
ter conseguido atender o pedido de permanecer na escola do bairro. Sua mãe
alegrava-se pela economia da passagem de ônibus e beijava a cabeça do garoto,
olhando agradecida a filha por sua intenção manifesta. Continuou rezando e
lembrou do sanduíche de atum, que a essa altura lhe parecia mais com braços,
pernas e pensamentos que com alimento recomendado para o pós-treino. As
primeiras mordidas supriram com eficiência agachamentos e outros movimentos
preparatórios. As seguintes, maiores devido à altura exagerada do miolo de três
pães de forma com recheio duplo de atum ralado e pouca maionese, pareciam
voltar no tempo e fazê-la bater forte na bola, pular e bloquear com a agilidade
necessária, permitir imaginar antecipadamente os ataques do outro time. A
segunda metade inteira, se ela realmente estivesse criando sua própria
história, encontrava-se naquele instante guardada por um transbordante ânimo
adolescente ancorado em uma nova consciência amplificada e interessada em
trabalhar oportunidades possíveis: logo iria transformar-se em sorrisos e
perguntas no seu primeiro dia de aula.
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