O
instituto de cegos do exterior era uma ótima chance de passar a ver o mundo. –
Um instante senhor. – Ok. Lá estavam os equipamentos e pessoal técnico,
recursos necessários à abertura de novos horizontes. Ligou mais uma vez, sua
admissão ainda não havia sido confirmada, era preciso esforço e determinação.
Tudo incomodava nestes últimos dias, uma frase, um comportamento, até o dia a
dia normal de todos nós já incomodava por sua naturalidade, sua aceitação sem
perguntas no mundo de todos nós. Ligar a televisão nem pensar. Era assim mesmo
há tempos, só que naquela época, no início, o incômodo não era totalmente
percebido em sua integralidade. Era sequer entendido como sendo incômodo,
parecia mais uma exceção à regra, algo que não sabemos explicar bem e decidimos
não olhar mais. Tinha que curar-se, era uma questão importante demais para ser relegada
a mero interesse no que poderia dar. Era seguir vivendo e achando tudo muito
normal ou ter a coragem de erguer-se e, se caísse, levantaria uma, duas, três
vezes até manter-se erguido e poder caminhar mais livremente, menos ancorado,
mais ágil. Tinha um plano,queria posto em prática e fazê-lo decolar. Lembrou de
seu primeiro voo, era bem pequenino. Naquela noite dormiu a maior parte do
tempo, por alguns minutos,levantou a cabeça do travesseiro, sentia-se flutuar e
passou admirando o entorno, olhar tudo lá de cima, imaginar que havia um acima,
pois aquele ponto de vista não era a mesma coisa que subir no armário. Teve
medo no início, mas acostumou-se e agora queria voltar a sentir-se assim, leve
e no caminho certo.
Estava lendo muito,
procurando por alguma coisa. Ler, ler,ler, mesmo que tateando seu caminho, era
um mantra digno e acessível a qualquer um. Quanto mais cego, aquele menos
propenso à cura, casos mais difíceis e tal,mais era preciso ler, pesquisar,
quebrar paradigmas. Qualquer limitação é um desafio, um convite à ousadia, à
criatividade. A recompensa pode ser uma vida mais inteira, mais de fato, e
porque não, feliz. A sensibilidade estava aguçada a ponto de ficar viciado em
pesquisar e tentar entender mais sobre o que o incomodava e possíveis níveis de
cura. Pensava que os cegos que iria encontrar,os cegos do exterior, não eram
cegos porque queriam, mas poderiam vir a ser menos cegos se quisessem. E era
isso que interessava, era mensurável, era promissor e não era preciso retirar
de sua vida qualquer das coisas conquistadas. Acabava que tinha uma vida. Era
boa, havia êxitos, amor,projetos, era promissora. Mas não era o bastante, pois
assim seria igual a qualquer outro que iria tratar, aqueles que pouco enxergam,
vivem limitados,condicionados, sem explorar novas possibilidades, incluindo os
que tem dinheiro suficiente ou até muito mesmo. Tinha para ele que deveria ser
fiel a sí mesmo,ao seu potencial. Não poderia ser diferente, apesar do medo e
da dificuldade em encontrar respostas mais imediatas que atendessem às
necessidades prementes que nasciam do simples acordar, se alimentar, dormir e
acordar novamente. Trabalhar, pagar contas e namorar garotas eram coisas que
fazia, como qualquer um que via menos ou mais que ele também o faz. No fundo, ainda
tinha medo, um pouco de insegurança a partir do desconhecido. Queria manter-se
produtivo e integrado ao mundo que já conhecia. Mas havia um outro mais
cintilante e, no fundo, mais fidedigno a quem era, sabia que era e queria ser.
Ele era alguém que enxergava e ia além no mundo dos cegos.
Sempre o incomodou o
fato de que o sucesso no mundo dos cegos era superficial, mas era de qualquer
forma sucesso. E quanto mais cego,parecia que mais sucesso fazia. Será que a
aceitação irrestrita ou restrita da cegueira era um bom caminho, por mais que
houvessem muitos fatores indicando a necessidade de lutar? Aceitar a cegueira
da vida parecia ser um dogma, uma espécie de barreira cultural, uma lei
praticamente inviolável até recentemente, quando começaram a surgir cegos que
não admitiam mais não ver. Haviam bem sucedidos que eram meio-cegos, tinham uma
visão, ou parte de uma visão. Alguns não tinham visão também, mas eram muito
sensíveis e inclinados a ver mais que outros tantos. Estes eram cada vez mais a
imensa maioria. Cegos com posição política, religiosos cegos, diretores cegos,
investidores cegos, empresários cegos, profissionais cegos de todos os tipos. E
como o sucesso dos cegos era mais notado pelos próprios cegos, parecia que o
sucesso dos cegos era para os cegos verem. E na maioria das vezes, aqueles que
viam não interessavam muito aos cegos. É claro que à noite, quando colocamos
nossas cabeças no travesseiro e fechamos os olhos, somos todos iguais. Nesse
momento, todo cego vê o mundo como quem enxerga além do mundo dos cegos
também.
O som era melódico o
suficiente para uma espera minimamente confortável, mais uma. Meditara pela
manhã. Fazia um mês que vinha se esforçando para controlar a ansiedade, era
tanta que parecia correr em suas veias, deturpar seus movimentos, enfraquecer o
corpo. Queria soluções, entradas mais que saídas. Ao meditar também somos todos
iguais, olhos fechados são niveladores maravilhosos. O braço já estava dormente
quando uma voz o acordou. –Sim, disse o jovem médico. – O senhor foi admitido,
o aguardamos para início nessa segunda-feira, sua equipe o espera e já temos
uma operação espiritual marcada para as 9h da manhã. – Obrigado.
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