O despertador toca.
São 6h horas. Se a porra do despertador fosse uma coisa boa, se chamaria
despertaprazer. Mas não é assim. Pode despertar o pior nas pessoas e é certo
que a maioria acorda de mau humor por causa do despertador. Ainda de olhos
fechados, leva a mão direita na direção da mesinha de cabeceira. O braço está
dolorido, pensa que o corpo todo está exausto. Sobre os livros, encontra o
celular. Abre um pouco os olhos, o suficiente para medir o provável percurso
que o indicador deverá fazer para desbloquear a tela e cessar a campainha. Mas
no final do caminho, decide virar o corpo para acomodar-se melhor, acaba
movendo o braço, perdendo a posição e o trajeto mental do dedo. Abre os olhos
novamente e acerta o caminho. O sonar não mais ecoa. Percebe que está desperto.
Puta que pariu. A cabeça pesa sobre o travesseiro. É o uísque de ontem à noite,
pensa. Sair de baixo da coberta quente ao lado de uma bela mulher nua, ir para
a academia esperar para usar um aparelho todo suado, tomar café lendo às pressas
o jornal, pegar um puta trânsito, chegar no trabalho atrasado e encontrar logo
de cara o chefe, fazer reuniões de mais de uma hora enquanto os e-mails
empilham na caixa postal, sair para almoçar comida a quilo, fazer mais reuniões
longas com ppts longuíssimos, pegar outro puta trânsito, chegar em casa e
encontrar seu filho dormindo, sair do banho e encontrar sua mulher já dormindo
também. Respira aliviado, aquela já não mais é a sua rotina. Não começa o dia
assim há 16 dias. Mas e o futuro, o que seria dele? Afinal sem futuro
determinado, sua antiga realidade voltaria como um ‘foquete’, igual o padre que
casou seus pais costumava dizer. A piada com o sotaque germânico sempre foi
tema na família. Mas porque lembrara de algo tão distante? O padre já morreu, seu
pai e sua mãe separados há mais de 30 anos, enfim, vai saber. Sempre fora
preguiçoso para levantar da cama. Ao longo da noite, mudava constantemente de
posição, girava o corpo para um lado, dormia, girava o corpo para o outro.
Abraçado ao travesseiro, com um braço por debaixo para criar um volume que
pudesse acomodá-lo adequadamente, pousava a cabeça em busca de mais conforto.
Se não estivesse totalmente à vontade, o sono não viria. A posição das pernas
também era muito importante. Pernas abertas demais, e exporia a genitália a uma
pressão nada confortável, espremia os testículos e pressionava o pau. Se
fechasse demais, poria pressão nas coxas, entre as coxas, o que geraria também
desconforto suficiente para evitar que o sono chegasse. A medida certa desse
movimento todo, com um braço por debaixo do travesseiro fofo, a cabeça sobre a
elevação construída pelo braço, o corpo meio de lado, apoiando o peitoral sobre
o colchão, o outro braço largado naturalmente em forma de ‘V’ ou ‘L’, as pernas
nem muito abertas, nem muito fechadas, era capaz de criar condições para o
organismo trabalhar e finalizar o sono. Primeiro vinha uma sensação de perfeita
acomodação, era mental de início e gradativamente tornava-se física. Pensava
que estava bem e estaria, na sequência. Estava bem alojado e sentia os
pensamentos surgirem, como que querendo interromper a quietude que sinalizava o
começo de um projeto de sono bem sucedido. Se estivesse desperto, com a cabeça
cheia de resquícios diurnos, um filme de ação na televisão, ou até mesmo uma
conversa mais animada e alguma energia sobrando para fazer contraponto, teria
que fazer esforço para abrandar a própria mente. Mas nem sempre era assim. Se
aproximava mentalmente da cama e já ia entendendo que teria que abandonar
qualquer interesse que o despertasse. Seu corpo ia sucumbindo, sua mente não
oferecia muita resistência, ao menos não aquele nível de dificuldade que
encontram os insones, nem de perto. Normalmente, Gabriel já começava a
conversar com a própria cama no banheiro. Tomava um banho quente antes de
dormir, mijava no chão do box com o chuveiro fininho pelando na cabeça. Ia
fazendo o circuito de desligar a máquina aos poucos. Secava-se, passava fio
dental e escovava os dentes, penteava os cabelos, colocava o pijama – uma cueca
box e uma camiseta macia. Deitava, pensava no que seria o dia seguinte, a que
horas teria que acordar, rezava, navegava um pouco, lia um pouco, espiava
alguma TV. Lembrava de alguma coisa dita durante o dia, algo que o havia
marcado. “Esses babacas tinham que ser demitidos”. “Agradeça e diga que ligo
depois”. “Gente, que loucura, como pode a pessoa ser assim”. “Saudades dos meus
pais”. “Amo você”. Acabava dormindo dois segundos depois. Ao acordar, não era
diferente, era a mesma coisa, só que ao contrário. Ia aos poucos acordando.
Dormia fácil, mas aos poucos. Acordava fácil também, mas aos poucos. Gostava de
enrolar-se com o travesseiro, abraçava outro para acomodar-se, puxava a
coberta, a temperatura mais baixa da madrugada chegava de repente, mas só quando
acordava, e estava descoberto. Olhava para o lado e sentia vontade de abraçar,
enroscar-se. Mas Beatriz dormia o sono que precisava, suas horas mais preciosas
eram as da manhã. Naquelas últimas horas, entre 4h e 7h. Era um sono pesado no
início, logo que deitava, tanto que apagava de repente, sem avisar. Gabriel ia
perguntar e já olhava antes de começar a falar. Estava dormindo. Apagava as
luzes, a dela primeiro, a dele. Já com as luzes apagadas, retirava os
travesseiros a mais, que Beatriz colocava para ler, ver TV ou navegar.
Geralmente, ela balbuciava alguma coisa, estranhava o que acontecia, mas logo
entendia que estava dormindo com travesseiros demais. Era só seu amor, puxando
um, o outro, ajeitando o travesseiro de dormir. Fazia-lhe uma carícia na cabeça,
dizia alguma coisa suave, desejava bons sonhos. “Te amo”. “Te amo, amor, boa
noite.” Para Beatriz, começava ali a parte do dia que mais gostava. Beatriz era
daquelas pessoas para quem dormir não é necessidade, é programa. Mas só na hora
de dormir, quando acordada era cheia de energia. Dormindo, fazia as pazes com o
corpo, acalmava a mente, cuidava das pessoas. Sonhava sempre, ela, ele também.
Mas o sono de Beatriz era bem leve no final. O virar de lado de Gabriel tinha
que ser feito com cautela, medindo o peso e o movimento necessário para
movê-lo, um balé de isometria, tudo para não acordá-la. Às vezes, coincidia
estarem voltados para o centro da cama, pois ela também virava, como ele, o
lado durante o sono. E procuravam no escuro as mãos um do outro. Gostavam de se
dar as mãos dormindo, encostarem braços e pegarem um nos dedos do outro. Era
uma companhia de dormir. O sexo não entrava aí, ou não dormiriam mais. Era a
hora de se apoiar um no outro, de tecer breves comentários de companheirismo e
amor em silêncio. Sonarem-se. Eram votos de fidelidade no escuro, sem precisar
ver, nem tocar demasiado. Queriam apenas entrelaçar dedos e postar mãos quentes
e leves, um sobre as do outro até encontrarem o pouso certo, como que pilotos
de helicópteros. Sabiam de suas fragilidades todas, suas vezes de torcer um
pelo outro e por eles mesmos. Sabiam-se inteiros até na cama. Mesmo sem sexo,
sabiam-se inteiros. No sexo, para eles era fácil saberem o que o outro queria,
o tempo, o nível da pressão. Se a sutileza no sexo era bem-vinda para eles, a
delicadeza fora dele, no amar sem gozar visceralmente, apenas gozar a companhia
das mãos do outro no escuro, era mais ainda. Gabriel virou de lado e colocou-se
à vontade, confortável. Encontrou Beatriz de mãos postas enfiadas debaixo do
travesseiro. Ficou olhando a esposa por alguns segundos. Adormeceu naquela
mesma posição.
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
A ABUNDÂNCIA
A
abundância é uma criança de cinco anos apaixonada por dinossauros.
Objetivamente, não há motivos para tamanha dedicação. A questão é insolúvel: os
dinossauros não irão retribuir o amor incondicional do qual são instrumento de
manifestação. Porém, é ali, entre escamas, garras e dentes reinventados que
seus sentimentos se perpetuam; está seguro de que sempre haverá terreno
infinito para sua existência. As lojas? As lojas irão continuar exibindo
modelos até a exaustão do espaço infantil em casa. Basta mudar as cores.
Pronto, temos um dinossauro novo. Basta adicionar acessórios futurísticos.
Pronto, temos um dinossauro novíssimo. Basta encolher e colocar vários juntos.
Pronto, uma nova linha de produtos. Mas o maniqueísmo comercial da indústria
não afeta em nada a construção do caráter na criança de cinco anos. Engana-se o
marqueteiro industrial se pensa que a criança de cinco anos pode ser
eternamente ludibriada. Não, não pode. Ludibria-se o tal. Em verdade, ela se
aproveita de uma inocência um tanto despercebida do marqueteiro industrial.
Sinaliza que está à mercê de novidades, exibe sua real fragilidade e, enquanto
curte a infância, forma opinião – estuda calada a usurpadora intenção do
maniqueísmo industrial. Segue edificando futuro melhor enquanto brinca. Irá
querer trabalhar para uma empresa assim? Obsolescência programada,
descontinuidade arrolada, incompatibilidade anunciada. Sobram motivos para
fazer melhor. Articula novos tempos enquanto arquiteta membros em dorsos
espinhosos, olhos vidrados e perfis multiformes. Para poder interagir e
destacar-se a fim de suprir suas abundantes necessidades infantis –
especialmente junto às outras crianças de cinco anos – a criança de cinco anos
reproduz a própria escola de negócios. É o autodidatismo impetrado
instintivamente, semeando a promessa de fundar novas práticas, criar tempos
melhores que estes. A criança de cinco anos sabe todos os nomes científcos, as
diferentes eras da existência colossal e os individuais hábitos alimentares –
compreende a importância do conhecimento técnico aplicado, que é fonte de
prazer, tem potencialidade de inovação e serve como instrumento de poder.
Entende a cadeia alimentar, que o grande alimenta-se do pequeno, o mais apto
sobrevive confortavelmente, em detrimento porém – vai compreendendo o mundo
corporativo, conjugando observações e experiências, percebendo necessidades de
colaboração, ou terá que devorar amiguinhos no recreio para não ser devorada.
Indigestão moral. A criança de cinco anos tem um trunfo. O infinito. Acabou de
chegar faz cinco anos e um dia irá. Sabe que por mais que a depurem, será ainda
pura. Que tudo a ela pertence. Que nada pode detê-la. Que por contrato há que
merecer. Sai do banho, se deixa pentear, escova os dentes, se deixa trocar, se
olha no espelho. Já cheirando à colônia infantil, trajando pijama vincado de
algodão, se senta à mesinha de madeira. Abre o estojo, alinha o papel e começa
a fazer a lição do inglês. Já fareja e adora o que tem para jantar.
terça-feira, 2 de outubro de 2012
A CERTEZA
A
CERTEZA
A
certeza é um auditor da Receita Federal que dá aulas em cursinho público.
Outrora emérito consursado, hoje bastião do Estado. Uma espécie de Smith com
valores de Neo, mergulhado cada vez mais em bytes, crossings, checkings e
outras tecnologices, que nos levam a acreditar que não tem jeito, ele sempre
estará lá. Usa óculos, sorri apertado. Quer enxergar mais, não pode mostrar os
caninos ou correm. Acorda pontualmente às 05h05 – sem a necessidade de qualquer
artefato eletrônico para despertar. Desliga o despertador às 05h05’05” – é a
repescagem, uma espécie de plano de contingência fiscal do sono. Mal abre os
olhos e já está desperto. Se levanta, a coluna ereta, empertigada de razão.
Desliza sorrateiramente para não acordar a mulher ao seu lado – é a sua mulher,
mas naquele momento está mais para a mulher ao seu lado. O dever primeiro, a
família depois. Basta dizer que ela já foi pega na malha fina duas vezes: numa
casou-se com ele, pois o homem não desistia, na outra foi um recibo de médico
declarado errado. Impiedosamente, se esgueira pela beirada da cama e termina
por acessar o banheiro. Acende as luzes e se olha no espelho. Vê vários homens
– a começar pelo seu chefe, que está sempre a perguntar-lhe o que estamos ou
quem estamos esquecendo. Os outros homens são contribuintes delitosos ou em
vias de – ou seja, todos os contribuintes são, em princípio, delitosos. Escova
os dentes duas vezes – repescagem bactericida. Bochecha Listerine – tripla
proteção. Toma um banho quente. Desliga a água para ensaboar o corpo. Ensaboa
em ordem: o pescoço, os ombros, o tórax, braços, barriga, genitália, pernas e
pés. Lava as mãos. Com elas limpas, esfrega e leva nova dose de espuma ao
rosto. Lava a face, orelhas e nuca. Enxágua tudo diligentemente, sem deixar
resquícios. Ao final, coloca o xampú, lava os cabelos e os enxágua. A água
quente escalda a pele, mas nada sente – é feito de ferro. Queria se dizer de
aço, mas sabe que pode sucumbir a tentações. Para não sucumbir, se permite ser
de ferro – há humildade estratégica no homem de ferro. Seca o corpo, se
perfuma, se veste. Lê três jornais, dois de notícias, um terceiro de economia e
finanças. Bebe um grande copo d’água. Sai sem tomar café da manhã. Sua fome
pela manhã é outra. Informação e metas. Quer chegar rápido na sede da
inteligência operacional fiscal da cidade. No caminho, com o ar-condicionado no
dois, vai ouvindo rádios de notícias. Rádio 1. Rádio 2. Rádio 3. Rádio 4. Rádio
5. Entre um sinal e outro, lê e-mails no Iphone. Não responde, não dá tempo; é
ineficiente começar um e-mail e não enviá-lo ou sequer ler os outros. Dirige
com o banco alto e colado no volante. Deve estar preparado; fez curso de
direção defensiva com o Bope. Chega ao seu destino. A pasta 007 está ao lado,
no banco do carona. Antes de desligar o carro, dá uma pisada no acelerador, o
torque da máquina 3.0 faz um ronco grave e emborca o carro um pouco para a
direita. Sua inclinação era para a esquerda, mas sentiu-se compelido a ajustar
isso quando passou em 3º lugar para a Receita Federal. Abre a maleta. Papéis,
par de óculos sobressalente, agenda de couro, caneta e spray de menta. Pega o
tubo e lê ‘Mentol com própolis’. Há que cuidar da primeira impressão tanto
quanto de sua saúde institucional. Hoje haverá uma batida policial de madrugada,
com apoio da polícia e receita federais. Precisa estar com o instrumento
tinindo ou o timbre de sua anunciação não soará como deve. Não vê a hora de
adentrar uma mansão na Barra da Tijuca e afirmar com vontade e propriedade ‘Boa
noite, o senhor está preso por sonegação fiscal.’
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