quinta-feira, 18 de outubro de 2012

16 DIAS (novo trecho)


O despertador toca. São 6h horas. Se a porra do despertador fosse uma coisa boa, se chamaria despertaprazer. Mas não é assim. Pode despertar o pior nas pessoas e é certo que a maioria acorda de mau humor por causa do despertador. Ainda de olhos fechados, leva a mão direita na direção da mesinha de cabeceira. O braço está dolorido, pensa que o corpo todo está exausto. Sobre os livros, encontra o celular. Abre um pouco os olhos, o suficiente para medir o provável percurso que o indicador deverá fazer para desbloquear a tela e cessar a campainha. Mas no final do caminho, decide virar o corpo para acomodar-se melhor, acaba movendo o braço, perdendo a posição e o trajeto mental do dedo. Abre os olhos novamente e acerta o caminho. O sonar não mais ecoa. Percebe que está desperto. Puta que pariu. A cabeça pesa sobre o travesseiro. É o uísque de ontem à noite, pensa. Sair de baixo da coberta quente ao lado de uma bela mulher nua, ir para a academia esperar para usar um aparelho todo suado, tomar café lendo às pressas o jornal, pegar um puta trânsito, chegar no trabalho atrasado e encontrar logo de cara o chefe, fazer reuniões de mais de uma hora enquanto os e-mails empilham na caixa postal, sair para almoçar comida a quilo, fazer mais reuniões longas com ppts longuíssimos, pegar outro puta trânsito, chegar em casa e encontrar seu filho dormindo, sair do banho e encontrar sua mulher já dormindo também. Respira aliviado, aquela já não mais é a sua rotina. Não começa o dia assim há 16 dias. Mas e o futuro, o que seria dele? Afinal sem futuro determinado, sua antiga realidade voltaria como um ‘foquete’, igual o padre que casou seus pais costumava dizer. A piada com o sotaque germânico sempre foi tema na família. Mas porque lembrara de algo tão distante? O padre já morreu, seu pai e sua mãe separados há mais de 30 anos, enfim, vai saber.  Sempre fora preguiçoso para levantar da cama. Ao longo da noite, mudava constantemente de posição, girava o corpo para um lado, dormia, girava o corpo para o outro. Abraçado ao travesseiro, com um braço por debaixo para criar um volume que pudesse acomodá-lo adequadamente, pousava a cabeça em busca de mais conforto. Se não estivesse totalmente à vontade, o sono não viria. A posição das pernas também era muito importante. Pernas abertas demais, e exporia a genitália a uma pressão nada confortável, espremia os testículos e pressionava o pau. Se fechasse demais, poria pressão nas coxas, entre as coxas, o que geraria também desconforto suficiente para evitar que o sono chegasse. A medida certa desse movimento todo, com um braço por debaixo do travesseiro fofo, a cabeça sobre a elevação construída pelo braço, o corpo meio de lado, apoiando o peitoral sobre o colchão, o outro braço largado naturalmente em forma de ‘V’ ou ‘L’, as pernas nem muito abertas, nem muito fechadas, era capaz de criar condições para o organismo trabalhar e finalizar o sono. Primeiro vinha uma sensação de perfeita acomodação, era mental de início e gradativamente tornava-se física. Pensava que estava bem e estaria, na sequência. Estava bem alojado e sentia os pensamentos surgirem, como que querendo interromper a quietude que sinalizava o começo de um projeto de sono bem sucedido. Se estivesse desperto, com a cabeça cheia de resquícios diurnos, um filme de ação na televisão, ou até mesmo uma conversa mais animada e alguma energia sobrando para fazer contraponto, teria que fazer esforço para abrandar a própria mente. Mas nem sempre era assim. Se aproximava mentalmente da cama e já ia entendendo que teria que abandonar qualquer interesse que o despertasse. Seu corpo ia sucumbindo, sua mente não oferecia muita resistência, ao menos não aquele nível de dificuldade que encontram os insones, nem de perto. Normalmente, Gabriel já começava a conversar com a própria cama no banheiro. Tomava um banho quente antes de dormir, mijava no chão do box com o chuveiro fininho pelando na cabeça. Ia fazendo o circuito de desligar a máquina aos poucos. Secava-se, passava fio dental e escovava os dentes, penteava os cabelos, colocava o pijama – uma cueca box e uma camiseta macia. Deitava, pensava no que seria o dia seguinte, a que horas teria que acordar, rezava, navegava um pouco, lia um pouco, espiava alguma TV. Lembrava de alguma coisa dita durante o dia, algo que o havia marcado. “Esses babacas tinham que ser demitidos”. “Agradeça e diga que ligo depois”. “Gente, que loucura, como pode a pessoa ser assim”. “Saudades dos meus pais”. “Amo você”. Acabava dormindo dois segundos depois. Ao acordar, não era diferente, era a mesma coisa, só que ao contrário. Ia aos poucos acordando. Dormia fácil, mas aos poucos. Acordava fácil também, mas aos poucos. Gostava de enrolar-se com o travesseiro, abraçava outro para acomodar-se, puxava a coberta, a temperatura mais baixa da madrugada chegava de repente, mas só quando acordava, e estava descoberto. Olhava para o lado e sentia vontade de abraçar, enroscar-se. Mas Beatriz dormia o sono que precisava, suas horas mais preciosas eram as da manhã. Naquelas últimas horas, entre 4h e 7h. Era um sono pesado no início, logo que deitava, tanto que apagava de repente, sem avisar. Gabriel ia perguntar e já olhava antes de começar a falar. Estava dormindo. Apagava as luzes, a dela primeiro, a dele. Já com as luzes apagadas, retirava os travesseiros a mais, que Beatriz colocava para ler, ver TV ou navegar. Geralmente, ela balbuciava alguma coisa, estranhava o que acontecia, mas logo entendia que estava dormindo com travesseiros demais. Era só seu amor, puxando um, o outro, ajeitando o travesseiro de dormir. Fazia-lhe uma carícia na cabeça, dizia alguma coisa suave, desejava bons sonhos. “Te amo”. “Te amo, amor, boa noite.” Para Beatriz, começava ali a parte do dia que mais gostava. Beatriz era daquelas pessoas para quem dormir não é necessidade, é programa. Mas só na hora de dormir, quando acordada era cheia de energia. Dormindo, fazia as pazes com o corpo, acalmava a mente, cuidava das pessoas. Sonhava sempre, ela, ele também. Mas o sono de Beatriz era bem leve no final. O virar de lado de Gabriel tinha que ser feito com cautela, medindo o peso e o movimento necessário para movê-lo, um balé de isometria, tudo para não acordá-la. Às vezes, coincidia estarem voltados para o centro da cama, pois ela também virava, como ele, o lado durante o sono. E procuravam no escuro as mãos um do outro. Gostavam de se dar as mãos dormindo, encostarem braços e pegarem um nos dedos do outro. Era uma companhia de dormir. O sexo não entrava aí, ou não dormiriam mais. Era a hora de se apoiar um no outro, de tecer breves comentários de companheirismo e amor em silêncio. Sonarem-se. Eram votos de fidelidade no escuro, sem precisar ver, nem tocar demasiado. Queriam apenas entrelaçar dedos e postar mãos quentes e leves, um sobre as do outro até encontrarem o pouso certo, como que pilotos de helicópteros. Sabiam de suas fragilidades todas, suas vezes de torcer um pelo outro e por eles mesmos. Sabiam-se inteiros até na cama. Mesmo sem sexo, sabiam-se inteiros. No sexo, para eles era fácil saberem o que o outro queria, o tempo, o nível da pressão. Se a sutileza no sexo era bem-vinda para eles, a delicadeza fora dele, no amar sem gozar visceralmente, apenas gozar a companhia das mãos do outro no escuro, era mais ainda. Gabriel virou de lado e colocou-se à vontade, confortável. Encontrou Beatriz de mãos postas enfiadas debaixo do travesseiro. Ficou olhando a esposa por alguns segundos. Adormeceu naquela mesma posição.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A ABUNDÂNCIA

A abundância é uma criança de cinco anos apaixonada por dinossauros. Objetivamente, não há motivos para tamanha dedicação. A questão é insolúvel: os dinossauros não irão retribuir o amor incondicional do qual são instrumento de manifestação. Porém, é ali, entre escamas, garras e dentes reinventados que seus sentimentos se perpetuam; está seguro de que sempre haverá terreno infinito para sua existência. As lojas? As lojas irão continuar exibindo modelos até a exaustão do espaço infantil em casa. Basta mudar as cores. Pronto, temos um dinossauro novo. Basta adicionar acessórios futurísticos. Pronto, temos um dinossauro novíssimo. Basta encolher e colocar vários juntos. Pronto, uma nova linha de produtos. Mas o maniqueísmo comercial da indústria não afeta em nada a construção do caráter na criança de cinco anos. Engana-se o marqueteiro industrial se pensa que a criança de cinco anos pode ser eternamente ludibriada. Não, não pode. Ludibria-se o tal. Em verdade, ela se aproveita de uma inocência um tanto despercebida do marqueteiro industrial. Sinaliza que está à mercê de novidades, exibe sua real fragilidade e, enquanto curte a infância, forma opinião – estuda calada a usurpadora intenção do maniqueísmo industrial. Segue edificando futuro melhor enquanto brinca. Irá querer trabalhar para uma empresa assim? Obsolescência programada, descontinuidade arrolada, incompatibilidade anunciada. Sobram motivos para fazer melhor. Articula novos tempos enquanto arquiteta membros em dorsos espinhosos, olhos vidrados e perfis multiformes. Para poder interagir e destacar-se a fim de suprir suas abundantes necessidades infantis – especialmente junto às outras crianças de cinco anos – a criança de cinco anos reproduz a própria escola de negócios. É o autodidatismo impetrado instintivamente, semeando a promessa de fundar novas práticas, criar tempos melhores que estes. A criança de cinco anos sabe todos os nomes científcos, as diferentes eras da existência colossal e os individuais hábitos alimentares – compreende a importância do conhecimento técnico aplicado, que é fonte de prazer, tem potencialidade de inovação e serve como instrumento de poder. Entende a cadeia alimentar, que o grande alimenta-se do pequeno, o mais apto sobrevive confortavelmente, em detrimento porém – vai compreendendo o mundo corporativo, conjugando observações e experiências, percebendo necessidades de colaboração, ou terá que devorar amiguinhos no recreio para não ser devorada. Indigestão moral. A criança de cinco anos tem um trunfo. O infinito. Acabou de chegar faz cinco anos e um dia irá. Sabe que por mais que a depurem, será ainda pura. Que tudo a ela pertence. Que nada pode detê-la. Que por contrato há que merecer. Sai do banho, se deixa pentear, escova os dentes, se deixa trocar, se olha no espelho. Já cheirando à colônia infantil, trajando pijama vincado de algodão, se senta à mesinha de madeira. Abre o estojo, alinha o papel e começa a fazer a lição do inglês. Já fareja e adora o que tem para jantar.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

A CERTEZA

A CERTEZA
A certeza é um auditor da Receita Federal que dá aulas em cursinho público. Outrora emérito consursado, hoje bastião do Estado. Uma espécie de Smith com valores de Neo, mergulhado cada vez mais em bytes, crossings, checkings e outras tecnologices, que nos levam a acreditar que não tem jeito, ele sempre estará lá. Usa óculos, sorri apertado. Quer enxergar mais, não pode mostrar os caninos ou correm. Acorda pontualmente às 05h05 – sem a necessidade de qualquer artefato eletrônico para despertar. Desliga o despertador às 05h05’05” – é a repescagem, uma espécie de plano de contingência fiscal do sono. Mal abre os olhos e já está desperto. Se levanta, a coluna ereta, empertigada de razão. Desliza sorrateiramente para não acordar a mulher ao seu lado – é a sua mulher, mas naquele momento está mais para a mulher ao seu lado. O dever primeiro, a família depois. Basta dizer que ela já foi pega na malha fina duas vezes: numa casou-se com ele, pois o homem não desistia, na outra foi um recibo de médico declarado errado. Impiedosamente, se esgueira pela beirada da cama e termina por acessar o banheiro. Acende as luzes e se olha no espelho. Vê vários homens – a começar pelo seu chefe, que está sempre a perguntar-lhe o que estamos ou quem estamos esquecendo. Os outros homens são contribuintes delitosos ou em vias de – ou seja, todos os contribuintes são, em princípio, delitosos. Escova os dentes duas vezes – repescagem bactericida. Bochecha Listerine – tripla proteção. Toma um banho quente. Desliga a água para ensaboar o corpo. Ensaboa em ordem: o pescoço, os ombros, o tórax, braços, barriga, genitália, pernas e pés. Lava as mãos. Com elas limpas, esfrega e leva nova dose de espuma ao rosto. Lava a face, orelhas e nuca. Enxágua tudo diligentemente, sem deixar resquícios. Ao final, coloca o xampú, lava os cabelos e os enxágua. A água quente escalda a pele, mas nada sente – é feito de ferro. Queria se dizer de aço, mas sabe que pode sucumbir a tentações. Para não sucumbir, se permite ser de ferro – há humildade estratégica no homem de ferro. Seca o corpo, se perfuma, se veste. Lê três jornais, dois de notícias, um terceiro de economia e finanças. Bebe um grande copo d’água. Sai sem tomar café da manhã. Sua fome pela manhã é outra. Informação e metas. Quer chegar rápido na sede da inteligência operacional fiscal da cidade. No caminho, com o ar-condicionado no dois, vai ouvindo rádios de notícias. Rádio 1. Rádio 2. Rádio 3. Rádio 4. Rádio 5. Entre um sinal e outro, lê e-mails no Iphone. Não responde, não dá tempo; é ineficiente começar um e-mail e não enviá-lo ou sequer ler os outros. Dirige com o banco alto e colado no volante. Deve estar preparado; fez curso de direção defensiva com o Bope. Chega ao seu destino. A pasta 007 está ao lado, no banco do carona. Antes de desligar o carro, dá uma pisada no acelerador, o torque da máquina 3.0 faz um ronco grave e emborca o carro um pouco para a direita. Sua inclinação era para a esquerda, mas sentiu-se compelido a ajustar isso quando passou em 3º lugar para a Receita Federal. Abre a maleta. Papéis, par de óculos sobressalente, agenda de couro, caneta e spray de menta. Pega o tubo e lê ‘Mentol com própolis’. Há que cuidar da primeira impressão tanto quanto de sua saúde institucional. Hoje haverá uma batida policial de madrugada, com apoio da polícia e receita federais. Precisa estar com o instrumento tinindo ou o timbre de sua anunciação não soará como deve. Não vê a hora de adentrar uma mansão na Barra da Tijuca e afirmar com vontade e propriedade ‘Boa noite, o senhor está preso por sonegação fiscal.’