terça-feira, 27 de janeiro de 2015

ÉTER (capítulo 1)

CAPITULO 1   ESPANTO


Prezada Neleh Naighsap,

Me chamo Pedro, tenho vinte e três anos, sou carioca, estudante de arquitetura e artista em formação. Venho tomar a liberdade de contatá-la para apresentar o meu trabalho em arte contemporânea. O texto abaixo é inédito e foi escrito por mim no ano passado. É gostoso pensar que toda arte pode começar igualmente tanto com desenhos como com o uso da palavra - ambos são traços e curvas que apresentam visões de mundo. E me inspira criar literatura que traduza uma visão da arte a serviço da ativação da transcendência: para algo maior do que aquilo que nos restringe e dirige no cotidiano; afinal, controlados já o somos, imensamente e em tudo. Assim, ao compartilhar esse texto com você, estarei preparando-a para minha obra (que está no outro anexo do e-mail). Peço desculpas pela invasão do seu espaço, do seu tempo. Sei que são coisas raras, matérias primas de nós mesmos. Por favor, sirva-se de tudo que está aqui. Me coloco à disposição para ouvir/ler o que puder me dizer. Caso venha a gostar, saiba que, em parte, o que faço aprendi com você.

Sincera e atenciosamente, 
Pedro Benjamim


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Era um domingo de sol e apesar de ser outono na cidade do Rio de Janeiro, o calor fritava os miolos de quem se aventurasse a sair de casa, fosse para uma gelada no bar do Geraldo, fosse para comprar pãozinho, mortadela e leite para o café da manhã das crianças na mercearia da Lourdes. O campinho de futebol do bairro, um terreno pequeno e improvisado que ficava a meio caminho da base do morro até a última casa, cujo único mérito para se jogar pelada era o fato de ser de terra batida, cumpria o seu papel para a molecada que morava no morro. Entre chutes, pernadas e bicos pra qualquer lado feitos por aqueles menos habilidosos, havia alguns dribles infantis desconcertantes, considerando a idade das crianças que disputavam a bola dente de leite estampada com "Para Vereador Vote 1221 Vote Cabrito". As traves eram simuladas com havainas de um e de outro, gastas nas pontas dos dedos e dos calcanhares, invariavelmente com um dos lados mais gasto que o outro. Os mais presentes, moleques que batiam ponto todo dia mesmo, eram uns cinco ou seis, de sete a doze anos, quase todos sempre sem camisa e com os pés no chão. Famílias completas, pais sozinhos e mães solteiras passavam agora por ali de mãos dadas com seus pequenos. As crianças pediam para ficar jogando bola enquanto o que tinha que ser feito era feito por seus pais, tios etc. As ruas eram sinuosas como as de um típico morro carioca, com degraus feitos na pedra, tortos e curtos, ou altos demais em certos trechos, dando a impressão de que tinham sido feitos às cegas, à noite ou de dia por uma turma que tinha almoçado a feijoada da Inês, a mulher do Geraldo, dono do bar, tomado umas pingas e enxugado umas loiras para na sequência tirar uma soneca debaixo de qualquer alambrado com sombra generosa, de preferência numa rua sem saída que encanasse um ventinho. Com certeza, não foi pensando em senhoras de idade carregadas de sacolas de mercado, já com alguma dificuldade trazida pelo tempo, uma doença aqui, uma enfermidade ali, que os rapazes fizeram a escada principal da comunidade. Mais parecia uma pegadinha sacana com uma gente simples e precisada, claramente à revelia da necessidade de ser uma via expressa para quem subia e descia todos os dias da semana, no ir e vir do trabalho e no circular do fim de semana. A cada vinte ou trinta degraus, afinal variava também com a inclinação do terreno e a passagem de algum córrego, formava-se um platô cimentado para respeitar o aclive suspenso pela natureza, criando uma espécie de pátio para as portas de casas voltadas para a frente de cada nível, onde as pessoas se encontravam e ficavam a par dos vizinhos, conversando um pouco, às vezes por meia hora ou mais, o suficiente para as sacas plásticas quase rasgarem os dedos de mãos femininas calejadas pelo trabalho braçal de lavar, passar, cozinhar e tudo o mais que as mulheres faziam, para suas próprias famílias assim como para famílias de classe média que as empregavam como domésticas. As melhores casas ficavam mais para o topo. Seus moradores foram os primeiros a chegar e ocupar a região com barracos improvisados, porém com o dobro do terreno das casas localizadas no sopé do morro. Os primeiros ocupantes do Morro da Providência, localizado na Zona Portuária do Rio de Janeiro, entre os bairros do Santo Cristo e Gamboa, tinham chegado ali em 1897, retornando da Guerra de Canudos. Ocorre que o governo prometera aos soldados cariocas residências como prêmio caso saíssem viroriosos da campanha. A Guerra terminou com um massacre de mais de vinte mil mortos, entre soldados locais e tropas vindas de dezessete estados brasileiros, distribuídas em quatro incursões militares. E a promessa fora descaradamente não cumprida. Desapontados e exaltados, os soldados decidiram tomar uma providência. Ocuparam uma região do morro sem nome e a batizaram figurativamente de Morro da Providência, alusão clara à atitude tomada diante da negativa do poder público em dar-lhes o que havia sido prometido. Logo o morro mudaria de nome para Morro da Favela, em referência a um dos morros onde a cidadela de Canudos foi erguida no interior da Bahia - favela era o nome popular de uma planta que encobria a região do sertão bahiano, a Cnidoscolus quercifolius. A ocupação mais ampla deflagrou-se no final do século XIX e início do século XX. Mas a partir de 1904, o então prefeito da Cidade do Rio de Janeiro, o engenheiro Pereira Passos, iniciou uma grande reforma urbana. O Rio era a capital da República e vivia período de grandes transformações. O Prefeito queria dar-lhe ares de Paris, com praças, boulevards, como eram chamadas as ruas largas de passeio público na cidade luz, e saneamento básico. Para tal, Passos mandou retirar cortiços e casebres populares localizados no Centro da Cidade, transferindo a população para os morros adjacentes à região portuária. Os cidadãos relegados a segundo plano eram essencialmente negros pobres, ex-escravos e filhos de escravos. Nessa época, a violência cresceu em todas as novas comunidades e o Morro da Favela, primeiro morro carioca como os conhecemos hoje, aquele que deu origem aos demais, era considerado o morro carioca mais violento de todos. Assim se seguiram os anos e a partir de 1920, qualquer ocupação irregular de colina com barracos disformes de madeira e alvenaria, passou a ser conhecida pelo nome de favela. De lá para cá, as favelas cresceram e com elas seus problemas. Forças políticas historicamente opostas discutiram se a solução passaria por integração urbana ou remoção urbana. Ganhou a permanência até então, e eis que desde dois mil e oito, a comunidade do Morro da Providência conta com uma Unidade de Polícia Pacificadora, a sétima UPP carioca, com o efetivo de duzentos e oito policiais, um projeto da Secretaria Estadual de Segurança do Rio de Janeiro que tem a intenção de instituir polícias comunitárias em favelas para tentar desarticular quadrilhas do crime organizado, principalmente o tráfico de drogas. A força do tráfico nas favelas sempre foi tão presente que no mesmo ano em que a UPP entrou no Morro da Providência, entre as mais de quinhentas favelas existentes no Rio de Janeiro, somente uma, a Favela Tavares Bastos, não tinha a presença de bandidos ligados ao tráfico. 

Francisco Wilson da Silva morava no Morro da Providência fazia vinte anos. Chegou no meio de um verão especialmente quente. Era um menino de uns cinco anos de idade, franzino e faminto como todo menino de cinco anos de idade que mora na roça. Seu pai, Severino Bastos da Silva, tinha vindo um ano antes do Ceará para buscar trabalho no Rio de Janeiro. Depois de assentado numa casinha do Morro da Providência, com salário fixo num trabalho de construção, tinha decidido trazer a família: sua mulher, Luiza, e os três filhos, os gêmeos Francisco Wilson da Silva e Wilson Francisco da Silva, e o caçula Thonson Cleverson da Silva, que curiosamente viria a figurar como o mais inteligente da família. No comboio Da Silva, veio também a irmã de sua mulher, a solteira Elvira. O pai de Severino havia falecido fazia dois anos, mas apesar disso, a matriarca da família, Dona Nina, não quis vir, como que acreditando em mau presságio, pois não conseguia aceitar morar num morro quando tinha no chão sua casinha de barro, uma horta e uns bichinhos. - Onde eu vou botar os bode, meu filho? E o jumento vai pra dentro de casa também? Severino ria e no fundo deliciava-se com a destemperança bem-humorada daquela senhora que o tinha parido, dado leite e cuidado para que fosse um homem bom e pegado no trabalho. Assim, não houve jeito e o jeito foi Dona Nina ficar para tràs como uma cama que se apresenta grande demais para caber na casa nova e segue apenas no coração do dono. Logo, não se passaram nem dois anos completos, a mãe de Severino faleceria aos sessenta e cinco anos de idade. O filho pediu dinheiro emprestado ao chefe na empresa de construção e foi enterrar a mãe no sertão. Soube pelos poucos amigos que a velha tinha morrido de tristeza, desgosto e arrependimento. Tudo junto. Não suportou viver um dia longe do filho único e seus netos. Ficava dias sem comer qualquer coisa, nem um pedaço de pão ou leite, olhando as fotografias bonitas que Severino mandava. As cartas do filho chegavam a ela todo mês. Depois que abria o envelope, chorava quase sem parar, secava sentindo falta do que a vida tinha lhe dado de mais precioso: um filho bom, uma nora, moça boa, e os filhos de seu filho. As crianças cresceram naquele morro. Gostavam de subir até a rocha grande, como chamavam uma quina de pedra incrustada numa ponta do morro, metade do caminho até sua casa no alto. De lá, trepavam nas árvores para comer manga, jaca e laranja, enquanto miravam o horizonte, vendo os barcos chegando e saindo com suas cargas de todos os tipos em caixinhas que lembravam os blocos de brincar com que a patroa de sua mãe os havia presenteado no último Natal. Eram apaixonados pelos legos coloridos. Passavam horas a fio sentados no chão da casa de dois cômodos que alugavam de um senhor comerciante de peças automotivas e dono de diversos imóveis no morro. Dizia-se que tinha imóveis no Centro da Cidade também, umas salas comerciais alugadas que rendiam uma pequena fortuna mensal, coisa de uns cinquenta mil. As crianças iam à igreja semanalmente com os pais. Franscisco Wilson, Wilson Francisco e Thomson Cleverson colocavam roupas de domingo, com camisa para dentro da bermuda, botões fechados até o pescoço e cabelos perfeitamente penteados para os lados, com o recorte sempre começando do lado esquerdo, como o pai e avôs o usaram a vida toda. Até o vento tinha pena de bagunçar os cabelos das três crianças e acabar com a aura pueril que meninos devem apresentar, especialmente quando estão a caminho da Igreja num domingo de sol. Os pais tornaram-se evangélicos e a palavra do senhor era lida todos os dias na sala da casa, com a família calada, logo antes do jantar. Durante as refeições, sentavam-se todos à mesa e, mais uma vez, Severino agradecia a Deus Pai, agora pela comida que estava sendo servida, pela saúde da família e os bons empregos que ele e a mulher conquistaram. A casa era simples, porém enfeitada com carinho por uma mãe dedicada. Toda equipada com eletrodomésticos linha branca e televisão tela plana grande. Brinquedos, roupas e perfumaria nunca faltaram às crianças. Entre sobes e desces, pipas empinadas e perdidas, piques-pega, policia e ladrão e futebol no campinho, o mesmo que ainda estava lá nos dias de hoje, Francisco e seus irmãos cresceram alegres e saudáveis. Os estudos foram feitos em uma escola pública perto de casa. Como bons alunos que eram, tinham sempre direito a uma hora de televisão por dia, com canal a sua escolha, contanto que não fosse no horário do Jornal Nacional, nem da novela das oito. Severino gostava de colocar as crianças para dormir, contar histórias dele quando era pequeno e outros causos bem amalucados envolvendo seu pai e sogro. Eram um misto de folclore com reminiscências de infância, o que criava um clima único de aventura e mistério, deixando as crianças inteiramente vidradas. Depois de atender aos frenquentes pedidos por mais uma história, dava um basta e se sentava ao lado da cama de cada um, aguardava os pequenos colocarem as mãos espalmadas e, por vezes, perguntava - Quem sabe por que a gente coloca as mãos assim, juntinhas, coladas uma na outra? As três crianças gritavam ao mesmo tempo - Eu sei, eu sei! E Severino, após lembrar quem foi que respondera a pergunta da última vez - Hoje é a vez do Thomson Cleverson! - É a gente colado no papai do céu, papai! E Severino - Muito bem, meus amores. Por fim, beijava a fronte de cada um e dizia - Obrigado meu filho, que Deus o proteja, durma bem. Estavam entregues até a manhã seguinte. Sentia-se grato por ter sido escolhido para receber e cuidar daquelas criaturinhas tão especiais. Eram seus filhos, eram bons e estudiosos, eram educados e doces. Afinal, o que mais poderia pedir a Deus? Nada mais, já tinha tudo que precisava bem ali na sua frente. As crianças instantaneamente fechavam os olhos e punham-se a dormir, vivendo agora em sonho as suas próprias fantasias e aventuras. Severino saia de fininho e ainda olhava para trás, pela fresta da porta mais uma vez como quem sabe que aquilo não duraria para sempre. As crianças iriam crescer, desenvolver vontades e desejos, frustrariam-se umas tantas vezes por seu pai e sua mãe serem pobres e trabalhadores, portanto incapacitados de suprir o que viriam a desejar. Isso era motivo de aflição para Severino. Como poderia quebrar com aquela sinistra previsão de futuro que enxergava ali em seus primeiros ramos? Como uma grama que leva um tempinho para crescer e dominar a terra fofa e adubada, mas irremediavelmente acaba subindo à superfície em busca da luz do sol. As crianças também iriam querer mais da vida: melhores roupas, melhores brinquedos, melhores doces e sorvetes, melhores festas de aniversário e assim por diante. Era como um espinho em seu coração. Só de imaginar que não poderia prover tudo do bom e do melhor, ou ao menos, melhor do que já o fazia, deixava-o entristecido e um tanto decepcionado com a vida. A fé, todavia, fazia o papel de apaziguadora das dores. Graças a Deus, as crianças tinham perfeita saúde, sempre tiveram. Tirando a gravidez do caçula, que enroscara-se no próprio cordão umbilical ainda dentro da barriga da mãe, provocando contrações prematuras que a fizeram desmaiar logo após o jantar e ser levada às pressas para fazer uma cesariana, tirando aquela noite, quando achara que tudo ia desmoronar, ficando viúvo e com um filhote natimorto, tirando aquele sufoco, tudo tinha dado certo com seus três tesouros. Durante a semana, Severino sentia falta das crianças e, por causa disso, às vezes, levava-as para ver onde trabalhava. Severino era mestre de obras de uma construtora carioca. Bastava saltar da linha que fazia o trecho entre o centro e os diversos locais de trabalho pelos quais já tinha passado na vida, e as crianças ficavam extasiadas com a visão daquelas máquinas enormes amarelas, algumas com dentes de aço que lhes botavam medo só de olhar. Subiam nos tratores, nas retroescavadeiras e sentavam-se na cabine do caminhão de misturar cimento. Francisco Wilson era o que mais gostava daquilo tudo. E adorava fazer perguntas sobre o que seria aquele espaço no futuro, que tipo de gente moraria ou trabalharia ali, e ainda quem eram os patrões de seu pai. Severino respondia tudo com calma para não se atrapalhar diante do filho que lhe parecia mais interessado em sua profissão do que os outros que no momento corriam alucinadamente por entre pilhas de tijolos, desviando de carrinhos com restos de cimento e enxadas largadas no chão. E foi dessa maneira, nas excursões às obras que o pai tocava, que aquelas crianças tiveram contato com o mundo do trabalho, cresceram e formaram-se em cursos técnicos no Senac para logo começarem a ganhar seu próprio sustento. Wilson Francisco saiu cedo de casa, aos vinte anos, e foi morar na favela da Rocinha, onde trabalhava como eletricista na subestação da companhia de luz. O caçula, Thomson Cleverson, quis seguir o caminho da cozinha e após passar aperto em dois empregos iniciais, foi contratado como ajudante em um restaurante chique na zona sul, dividindo um quarto em Copacabana com dois colegas do trabalho. O único que permaneceu no Morro da Providência, morando na mesma viela dos pais, foi Francisco Wilson. Casou-se com uma bonita moça chamada Clara e era o único entre os irmãos que já tinha filhos no casamento, uma menina de quatro anos e um menino de cinco, Maria e Gabriel. 

E foi naquele domingo de sol tipo maçarico, com moleques chutando bola desde cedo no campinho do morro, que Francisco Wilson, a mulher Clara, e os filhos tinham convidado os irmãos de Francisco para um almoço em sua casa. Eram nove e trinta e cinco quando desceram os quatro até o açougue para comprar um bonito pedaço de músculo. Passavam pelos vizinhos e eram cumprimentados com alegria, em parte porque eram pessoas muito simpáticas, tanto Francisco como sua mulher, em parte por causa das crianças todas arrumadas, chamando a atenção de avós e mães pelo caminho. A venda ficava a quase duzentos metros da entrada da favela. Era uma ótima oportunidade para Francisco levar as criança, mesmo que ainda muito pequeninas, para um passeio, e mesmo que fossem caminhar praticamente só até a esquina. No caminho, as crianças se comportavam e mantinham as mãos dentro das mãos de seus pais, uma com cada um, sendo o menino Gabriel com Francisco e Maria com Clara, para terem o direito de ganhar um sorvete cada um na volta. Era costume dos pais fazerem tal promessa, pois beneficiava ambos os lados, os adultos com o bom comportamento dos filhos e as crianças com os picolés, uma espécie de obrigado pelo seu comportamento. Depois de subirem os sessenta degraus que iam do asfalto até a porta da sua casa, Clara tratou de tirar as roupas de passeio das crianças até um pouco antes dos tios chegarem. Colocou então bermuda e camiseta em cada um, e um desenho para passar na televisão da sala. Aquilo foi o suficiente para os dois aboletarem-se entre almofadas e caírem em hipnose com as aventuras do pica-pau na programação de sábado da TV Record. Fancisco sentava-se na cadeira de balanço perto da janela e lia seu jornal. Se permitia tomar uma branquinha "para ajudar a descer o amargo das notícias". Ao contrário de seus pais, Francisco e seus irmãos não tinham se convertido à igreja evangélica. Frequentavam as igrejas católicas tradicionais aos domingos. A bem dizer, isso mais valia para Francisco Wilson que estava casado e com filhos do que para seus irmãos ainda sem as obrigações que uma família impõe. Na geladeira, havia garrafas de cerveja para o almoço e sob a mesa a garrafa de pinga caso tivesse companhia para um brinde. Enquanto na sala tudo transcorria tranquilamente, Clara colocava a peça de carne para ferver na panela de pressão. Clara era uma cozinheira de mão cheia. De segunda a sexta, transformava peixe, frango e filé mignon em assados incríveis na casa de um diretor de TV e sua mulher, uma ex-atriz. Em casa, rebolava para sair do básico carne-de-segunda-acompanhada-de-arroz-feijão-e-salada. A verdade é que não havia qualquer diferença entre o sentimento que dedicava ao preparo da comida do marido e seus filhos e como  transformava ingredientes nobres em pratos incríveis na casa dos patrões com seus convidados. Gostava mesmo de cozinhar, servir e se fazer presente por inteira fosse para quem fosse a refeição. Uma hora depois e o aroma que saia da cozinha era motivo de comentário na sala e fora da sala, nas casas ao lado, por outras donas de casa e seus maridos. A carne de segunda tinha virado um guisado desfiado em molho ferrugem, com alho e cebola refogados, molho de tomate e tomates picadinhos com rodelas de cenoura cozida. O cheirinho do feijão temperado emanava da panela e revelava o louro e o pedacinho de toucinho que tomava conta da cozinha e ia sorrateiramente estimular o olfato das crianças e seu marido na sala. Clara era disparada a melhor cozinheira do pedaço e isso era comprovado nos almoços promovidos entre vizinhos em datas festivas como Dia das Mães, Dia das Crianças, Natal e Ano Novo. Todos acabavam provando e repetindo, quando comiam depressa e chegavam a tempo de se deparar com uma última porção, o que quer que fosse que Clara tivesse cozinhado. 
- Mãe, tô com fome!
- Eu também!
- Que isso? Muita calma, vocês acabaram de comer bolachas de maizena, isso logo depois daqueles picolés. Esperem seus tios chegarem!
- Eles já chegaram!
Foi as crianças pedirem para comer que os irmãos de Francisco bateram à porta da casa, chamando pela família com brincadeiras típicas de tios com sobrinhos pequenos.
- Ô, de casa! Fui convidado para almoçar aqui, cês num vão abrir essa porta não?!
O som da televião tinha encoberto os chamados de Wilson e Thomson. Logo, Francisco abriu a porta e abraçou os irmãos que fazia tempo não apareciam. As crianças e o pai receberam-nos com a alegria natural de ocasiões quando irmãos muito colados no passado se reencontram. Clara veio da cozinha cumprimentá-los. Trajando avental estampado com flores bem coloridas, abriu largamente os braços para caberem logo os dois mais quem quisesse ser abraçado por ela. Os cabelos levemente encarapinhados e cortados com estilo davam a ela ares de cozinheira de prigrama de TV. Terminado o abraço nos cunhados, disse qualquer coisa sobre os cunhados estarem mais magros, dando a chance ao marido de dizer - Meu amor, eu é que estou mais gordo... Afinal, sou casado com a melhor cozinheira do Rio de Janeiro! O clima de confraternização estava criado. Francisco foi até a porta da casa e disse que já voltava com os pais. Saiu, bateu a porta e foi cumprir o combinado de que quando os dois chegassem, iria avisar os velhos Severino e Luiza. Não demorou nem cinco minutos e já estavam todos reunidos na sala, sentados ao redor da mesa. Francisco ofereceu um gole de pinga aos irmãos, que aceitaram prontamente, e serviu os pais, a mulher e as crianças com água e coca-cola. Todos levantaram seus copos e fizeram um brinde à saúde da família e ao sucesso em seus empregos, Francisco celebrou a presença de irmãos e pais em almoço na sua humilde casa. Um dos irmãos disse que logo casasse iria fazer o mesmo: reuní-los em torno da mesa em sua casa. Todos beberam e comeram fartamente, dos pestiscos à sobremesa especial de Clara, o mais delicioso pudim de leite. Servido o café, os pais de Francisco foram para casa descansar. O irmão caçula de Francisco apagou no sofá da casa abraçado aos sobrinhos, todos em igual sono profundo. Francisco e a mulher limparam a mesa, lavaram a louça e já era noite quando serviram outro café forte aos irmãos de Francisco antes de irem embora. O casal assistiu um pouco de televisão enquanto trocavam comentários sobre o dia e as histórias que haviam surgido à mesa. Disseram como era bom estar em família, que aquilo tudo fazia os problemas ficarem pequenos, transformando-os em marido, mulher e pais mais fortes e ligados a Deus e a coisas boas. Francisco e Clara eram muito sensíveis e percebiam as coisas de forma diferente, reparando em conexões que suas emoções faziam com as dos outros, em sua conexão com o mundo e especialmente como a vida, que era caos na cidade, no país e no mundo, com gente se matando, roubando, mentindo e se drogando até a morte, ficava colorida e parecia abraçada por uma luz constante que os protegia e garantia que nada faltaria jamais. Mas sabiam que aquilo não fazia sentido se interpretado face à realidade difícil, sem muitos momentos de escape do trabalho exaustivo até o fim de suas vidas, da parca aposentadoria que receberiam do INSS e de uma imobilidade social e cultural a que estavam fadados. Tudo isso era sabido e estava bem presente em todas os seus pensamentos, tanto dele quanto dela, fizesse sol ou chuva, fosse dia ou noite. Mas fazer o quê? A vida deles era bem diferente da vida dos empregadores de Clara, por exemplo, que viviam em festas para comemorar lançamentos de novos programas e filmes. Viajavam duas vezes por ano para lugares distantes e sempre retornavam com mais malas do que foram, todas cheias de coisas novas. Aparelhos eletrônicos, livros, CDs, filmes, tênis, roupas, esculturas, posters, quadros, comidas, bebidas, doces, chocolates, temperos e mais. Enfim, uma infinidade de coisas que Clara nunca teria, que seu marido nunca veria, que seus filhos nunca usariam. A casa em que trabalhava era sim, aquilo sim, era uma casa. Moravam em São Conrado, lá em cima da montanha, sem filhos. Pobre morava em morro, rico morava em montanha. Jardim com paisagismo, sauna, piscina, canil para dois cachorros e quatro suítes abraçadas por duas grandes salas e uma saleta. Esse era o dia a dia de Clara. Não queria ser mal interpretada, de jeito algum. Era feliz onde trabalhava, o casal era ótimo e a tratava muito bem. Não tinha qualquer ponta de inveja. Sabia que não tinha graves problemas, ou algum complexo, como Francisco às vezes falava. Não, de jeito algum. Clara era feliz com quem tinha se casado e feito filhos maravilhosos. Era uma mulher realizada em família e no trabalho que fazia com paixão - e agradecia a vocação natural para como tratar os alimentos, para o tempero bom e o tempo certo, pois cozinhava lindamente sem nunca ter aprendido uma técnica que fosse, com ninguém, nem com sua própria mãe. Era talento seu mesmo, um presente de Deus que garantia seu emprego e um salário bem acima da média de suas amigas do bairro ou de suas colegas que trabalhavam em outras casas no mesmo condomínio de seus patrões. Mas bem que Clara tinha seus sonhos. Não eram materiais tanto assim. Eram mais do tipo emocionais, sim sonhos emocionais. Uma paisagem linda a cativava, por exemplo. Apesar de estar muito bem servida na cidade em que nascera, ouvia falar de outros países e via fotos de seus patrões na neve, em lagos enormes e montanhas sem fim, muito mais altas que o Corcovado. Ficava com aquele gostinho e o gostinho envolvia sua alma. Francisco comungava com a mulher, também tinha inquietações. De certo modo era parecido. Mas, ao mesmo tempo, muito diferente. Tinha uma pegada na vida de forma mais prática. Quando criança adorava desenhar, mas foi aos poucos largando. Também gostava de ouvir músicas melodiosas como as que tocavam nas igrejas e em rádios AM que seu pai escutava aos domingos. O pai não entendia como um garoto de dez anos de idade podia gostar de boleros, música popular brasileira e algumas melodias clássicas. Mas perto dos dez anos abandonou tudo aquilo para jogar bola com os amigos do bairro e soltar pipa com os irmãos. Eram Clara e Francisco, feitos um para o outro, pensou ela olhando pela janela da sala. Era sua vez no banheiro. Apagou a luz da sala e foi tomar banho. Amanhã era segunda-feira, dia de trabalho. 

Francisco acordou às seis e meia da manhã e Clara já tinha saído para o trabalho ou não chegaria às oito em ponto na casa oito da Rua Duvivier, em São Conrado. A greve de ônibus tinha reduzido as linhas e agora movimentar-se pela cidade tinha virado uma grande aventura. Francisco deu às crianças o café que Clara tinha deixado sobre a mesa, com leite, biscoitos, queijo, presunto e bolo. As fez escovar os dentes e partiu às sete e quinze para deixá-las no portão da escola pública antes das sete e meia, quando começavam as aulas. Dali seguiu a pé até o novo Museu de Arte do Rio - Mar. Estava Naquela obra fazia um ano, pertinho de casa, o que o favorecia para cuidar dos pequenos. Acabava que ganhava sempre algum tempinho livre que usava para resolver coisas da família. A obra do museu estava terminada e naquela semana aconteceria a inauguração. O que restava a ser feito eram pinturas de segunda demão em algumas paredes de salas que não seriam abertas ao público, reduzindo a pressão do cliente sobre a construtora e, por sua vez, da construtora sobre seus funcionários. O Mar tinha quinze mil metros quadrados de construção e oito grandes salas de exposição. Os dois prédios que compunham o complexo passaram por muitas intervenções. O Palacete Dom João VI, inaugurado em 1916 e tombado pelo município em 2010, foi submetido a um longo e meticuloso processo de restauro para se transformar no pavilhão de exposições do MAR. Eram dois edifícios que tiveram que ser unidos no meio, com passagens entre os andares e um teto contínuo entre os prédios por onde começariam as visitações. Lá de cima, avistava-se toda a Região Portuária do Rio em transformação. Francisco chegou e foi logo reportar-se ao seu chefe direto, o mestre de obras. Apesar dos seus vinte e oito anos contra os cinquenta e cinco do mestre de obras, havia nascido ali uma amizade diferente. Francisco era muito novo, mas absolutamente talentoso. Bastava pedir uma vez, explicar uma só vez, que Francisco, muitas vezes sem saber exatamente o que teria que fazer, compreendia a complexidade da tarefa e ia até o final, buscando o apoio de peões, carpinteiros, soldadores, de quem fosse, para garantir que estaria feita e entregue no tempo certo com alta qualidade. O capricho tinha herdado da mãe, a perseverança e a vontade de vencer do pai. Nelson, percebeu isso logo cedo quando lidou com Francisco na primeira obra, um prédio comercial em reforma também no Centro do Rio. Depois daquela obra, decidiu recrutá-lo para a equipe de forma fixa. Francisco ganhou um aumento no final daquele ano e lá se iam cinco anos dos dois trabalhando juntos. A amizade no trabalho avançara para a vida pessoal. Nelson tinha sido convidado para o batizado dos filhos de Francisco e ido somente no último por conta de um aniversário de um parente seu naquele mesmo dia. O chefe perguntava por Clara e as crianças sempre que lembrava. 
- Bom dia, Seu Nelson.
- Bom dia Francisco. 
- Seu Nelson, abre essa semana, né?
- Sim, a inauguração é nessa quinta-feira. É quando vem o pessoal importante.
- Muita gente, Seu Nelson?
- Não sei, mas deve ser, sim. O Prefeito vem aí, os convidados, o pessoal da CDURP. 
- CDURP?
- É aquela turma boa da Companhia... Ah, não sei o quê do Porto. Dona Gabriela, Dr. Sérgio, o pessoal que volta e meia passa por aqui pra reunião.
- Sim, lhe falei que na casa da Dona Gabriela trabalha a Teca, prima da minha mulher?
- Falou, sim. Coincidência essa, hein, Francisco?
-  É... Seu Nelson, eu queria convidar o senhor e sua família pro bolinho do Gabriel... O menino está completando cinco aninhos no próximo domingo. Coisa simples mesmo. Por favor, não precisa levar presente, é só aparecer pro parabéns com lanche... Vai ser só os amigos mais chegados e a família que é pequena. O senhor vai fazer alguma coisa, domingo? Seus filhos podem ir?
- Ôpa, tenho que ver com a patroa. Mas deve dar, sim. Que horas vai ser?
- A Clara marcou 15h.
- Xi, dá não, Francisco. 
- É, o senhor tem programa?
- É que nesse domingo tem almoço na casa dos pais da minha mulher, 14h tá marcado. Vou sair direto daqui pra lá. 
- Ué, daqui? 
- É que eu marquei uma coisa aqui de manhã.
- Mas o senhor precisa de ajuda? Não me falou nada. Pode pedir que tô às ordens, Seu Nelson, o senhor sabe.
- Não, não precisa, eu... Ô, Francisco, faz uma coisa então... Me encontra aqui às 9h de domingo...
- 9h de domingo? Ok, pode deixar.
- ... E traga a sua família.
- Como assim? Trazer minha família pro trabalho, Seu Nelson? 
- Sim, exatamente.
- Tem alguma coisa errada, Seu Nelson? O senhor vai me demitir?
- Claro que não, Francisco. Apenas esteja aqui com a sua família às 9h deste domingo. Combinado?
- Sim, senhor.

O pessoal do escritório da construtora tinha acabo de chegar e Francisco deixou o chefe tratar de assuntos da obra com eles. Faziam essas inspeções aqui e ali pra ver se estava tudo nos trilhos e sendo cumprido a tempo. Essa semana seria diferente de todas as anteriores. A chegada das obras de arte tinha começado no sábado anterior. Era segunda feira, sete e cinquenta e sete da manhã e todo tipo de arte continuava a ser entregue. Pelo visto, toda aquela confusão só teria fim a minutos da abertura oficial. De uma maneira apressada, equipes diversas se movimentavam, descarregando e carregando meio atabadoalhamente telas, esculturas, caixas e mais caixas, lonas gigantes e pedaços de materiais coloridos. Eram formas estranhas para os olhos de Francisco e seus colegas na obra. Sabiam que construíam um museu de arte e pensavam que arte tinha coisas sérias, como pinturas de paisagens, mas também tinha coisas malucas, que muita gente não entende e se sente meio idiota olhando. Alguns tinham curiosidade genuína sobre o tema, mas sua condição social criava um abismo entre mundos, o da vida com trabalho e o da arte - e aquele, sim, às vezes parecia até uma brincadeira. As crianças de Francisco gostavam de recortar figuras nas revistas descartadas pelos patrões de sua mãe e que ela trazia para dentro de casa. Clara olhava as fotos de gente famosa, lia uma coisa ou outra e logo liberava para eles desenharem com pilô sobre as páginas e recortarem livremente personagens diversos, pessoas e bonecos, prendendo tudo com durex na parede do quarto, fazendo por fim uma grande história. E talvez aquilo fosse arte também, mas de crianças, sem valor. Naquele dia, Francisco chegou em casa mais tarde do que de costume por conta da correria até a data de abertura das portas do Mar. As crianças já tinham jantado e assistiam TV. Clara sempre esperava pelo marido ao máximo, tapeava a fome com uma xícara de arroz e feijão fresquinhos que preparava todos os dias para Maria e Gabriel. Quando Francisco chegou, os filhotes já estavam no quinto sono. Fazia uma noite tão bonita que Clara propôs colocarem as espreguiçadeiras de alumínio para fora de casa, justo em frente à casa, como faziam nos fins de semana em que havia almoço comunitário. Sentaram-se de cara para um céu de estrelas e uma luz crescente que brilhava mais intensamente naquela noite. Parecia que havia sido feito um corte no céu, um rasgo não intencional provocado por um esbarrão de algo pontudo, e dava para se ver toda a luz que havia por detrás de um pano preto azulado. As estrelas, dizia Clara, apertando a mão esquerda do marido que já estava todo relaxado e com a segunda cerveja Brahma na mão direita, são furinhos que acontecem naquela imensa redoma. Elas vem com o tempo. Seriam como as bolinhas brancas que temos que retirar das roupas com bastante uso. Só que ali, continuava Clara, era o contrário. Enquanto na roupa, o acúmulo de bolinhas prenunciava (na verdade, ela disse mostrava) a proximidade do fim do ciclo de vida daquela peça de roupa (ela disse daquela roupa que  estava ficando velha e logo estaria feia), o céu furado por sua vez dizia para todos nós que há muita luz nessa vida, que há coisas maravilhosas esperando por nós, mas que tudo isso a gente não sabe e não vê. Mentira! Que a gente vê, sim. Mas é preciso estar sentado ao lado de um grande amor em uma noite linda como essa para conseguir ver. Francisco espantou-se com aquilo tudo. Era um espanto legítimo e emocionante. Sabia que sua mulher era romântica, ele próprio também, mas ouvir de sua boca uma coisa tão bonita assim, ainda mais espontaneamente. E estando os dois sozinhos em um raro momento de paz e sossego, aquilo para ele tornou-se arrebatador. Clara dissera aquilo olhando para o céu, só fitando ele pelo canto dos olhos. Os olhos de Francisco marearam, Ele apertou a mão dela e disse - Amor, que coisa mais linda. Você tinha que escrever o que disse... E eu nem sabia que você fazia poesia. - Nem eu, disse ela. Não sei se é poesia, está mais para amor, faz a gente olhar diferente para as coisas, ver coisas e histórias que não se vê sem esse olho de amor. Francisco e Clara foram em seguida para o quarto do casal, trancaram a porta e se entregaram um ao outro de um jeito que não acontecera antes. Ela gozou, ele gozou, cada um no seu tempo e com a tranquilidade dos casais que se sabem, se entendem. Pela manhã, Francisco acordou com restos de beijos da noite anterior, abriu os olhos e viu a mulher sorrindo e despedindo-se, como sempre fazia. A rotina seguiu antecipada, pois Francisco não conseguia mais dormir. Não sabia se era de felicidade, ou de uma noite bem dormida após um sexo eletrizado, ou até, quem sabe, se era porquê o aniversário do filhote estava chegando, ou se era porque em breve mudaria de projeto, pois o MAR estava em sua última semana. O dia transcorreu, a semana transcorreu. Francisco esquecera de contar à sua mulher que teria que trabalhar no Domingo. Nem que tinha supostamente que levar a família com ele para o trabalho. Que maluquice era aquela de pedir pra levar mulher e criança pra obra? Seria demitido, só podia ser isso. Era isso. E o chefe ia explicar para a família toda. A mulher ia chorar e o chefe queria ajudar a acalmá-la. Nada melhor que ter as crianças por perto para ela segurar a barra e ajudar o marido, tudo junto. Mas se não fosse demissão, levar os filhos para ver trator tudo bem, isso fazia todo sentido, agora, resto de obra sei não, é confuso, sempre tinha gente feliz com tudo que deu certo, mas sempre, sempre tinha cara amarrada também: o peão que levou esporro porque fez merda e o chefe puto com as merdas que o peão fez. E já era noite de Sábado quando Francisco lembrou disso tudo, do pedido do Seu Nelson para que estivessem às 9h na obra. - Pelo menos, é do lado de casa, Clara... A gente vai lá e volta logo. - Como assim, Francisco, vai lá e volta logo? Tu num vai ter que trabalhar lá, homem? Justamente no dia do aniversário do teu filho? - Acho que sim. - Como acha que sim, Francisco? Teu chefe não disse que é trabalho? - Acho que sim. - Ai, meu Deus, desisto de entender. Amanhã a gente vê.

O céu azul claro com sol menos forte do que o que vinha fazendo a semana inteira prometia uma tarde deliciosa para a festinha de aniversário do Gabriel. A casa estava limpa e arrumada, a mesa exibia a melhor toalha e o jogo de pratos e copos coloridos que tinham comprado para ocasiões especiais. A comida fora preparada de véspera, parecendo até que Clara tinha adivinhado que o marido ia chegar com uma ideia maluca de levar, a pedido de seu chefe, a família ao trabalho. Menos mal. O único problema era que teriam que se arrumar bem duas vezes. Sim, porque ela não iria aparecer no trabalho do marido com qualquer roupa. Nem ela, nem as crianças. Francisco ia sempre trabalhar de jeans e camisa de botão com cinto e, se necessário, ele se trocava ao chegar na obra. Decidiu, então, que iria colocar o vestido da festa e as crianças iam colocar a roupa da festa. Era dia de domingo e estavam acostumados a sair de casa para a missa das onze. Mas como era aniversário de seu filho, deixou a missa de lado naquele dia. Agora, com essa história nova, a roupa de domingo serviria para a festa e para a ida ao trabalho do marido. Isso era ser uma boa mulher para Clara: olha o problema, decide alguma coisa e vamos em frente. As crianças estavam eufóricas com o clima de festa. Francisco estava nervoso com a expectativa de uma demissão. Algo tinha dado errado, a firma pediu sua dispensa (consultou disfarçadamente os amigos e descobriu que ninguém mais iria no Domingo, o que o levou a concluir o que já sabia). Pronto, Seu Nelson era boa pessoa e gostava dele, mas viera uma ordem de cima e não tinha jeito. Minutos antes das nove horas, estavam Francisco, Clara, Gabriel e Maria arrumados, perfumados e de mãos dadas no portão de trás, por onde entravam os funcionários. Francisco estranhou que Jorge, o segurança não estivesse na cabine. Devia ser o banco de horas dele que estourou, pensou... - Mas vão economizar logo na segurança? Acabou falando alto. Quando sua mulher ia perguntar o que havia dito, ouviram barulho de crianças correndo,  brincando e uma voz, que parecia do Seu Nelson, sim, era a do Seu Nelson, pedindo que parassem. Em seguida, Seu Nelson apareceu sorrindo, abriu o portão e pediu que entrassem. Cumprimentou Clara, passou a mão na cabeça de Maria e deu os parabéns a Gabriel, o menino da família, para em seguida dizer o seguinte. 
- Francisco, fico muito agradecido por você haver me convidado, e a minha família, para o aniversário do Gabriel. Mas infelizmente a gente não vai poder ir mesmo. 
- Não tem problema, Seu Nelson, eu entendo, nós entendemos que o senhor tem...
- Mas eu não podia deixar de dar o presente do Gabriel...
- Ah, que isso seu Nelson, eu avisei pro senhor, sem presente... As coisas tão caras, o senhor tem filhos...
- Mas quem disse que meu presente me custou dinheiro?
Francisco não entendeu nada, olhou para Clara, que também fez cara de perdida. 
- Francisco, meu presente pro Gabriel não é de comprar. O meu presente pro Gabriel quem fez foi o pai dele, viu Gabriel, o presente do tio Nelson, da tia e dos meus filhos foi seu pai que fez. E ficou lindo. Ninguém entendeu nada. Nelson prosseguiu dizendo - É esse museu, Gabriel. O seu pai construiu esse museu, o museu mais bonito do Rio de Janeiro todo. Foi seu pai quem fez, ou fez um bom pedaço dele. 
- Desculpa Seu Nelson... Mas eu preciso saber, o senhor está me demitindo?
- Que demissão, Francisco, bebeu? Você é meu braço direito e onde eu for você vai comigo. Será assim até o fim. O que estou dizendo aqui pro teu filho é o contrário, amigo. Tu é um cara tão trabalhador e tão bom no que faz que vai poder levar tua família pra conhecer o museu inteirinho antes da cidade inteira. Ah, e sem pagar ingresso!
Francisco continuava sem entender. Então, não seria demitido? Ufa, só isso já era um presente e tanto para todos eles. Custava a acreditar que o seu chefe tinha feito uma surpresa daquele tamanho para seu filho, para todos eles. Que presente. Nesse momento, saíram de dentro da porta dos fundos do MAR, Dona Solange, a mulher do Seu Nelson e os dois filhos do casal, dois meninos de dez e oito anos. Todos se cumprimentaram. Clara enxugou as lágrimas antes de dar dois beijinhos em Dona Solange e as crianças sorriram umas para as outras. Deram a volta por dentro e saíram na entrada, agradeceram ao segurança que estava na frente do prédio, pegaram o elevador que os levou até o terraço. Esse era o percurso oficial do museu, que tinha sido feito na quinta-feira, durante o coquetel de abertura, por artistas, galeristas, marchands, jornalistas, críticos de arte, colecionadores e autoridades diversas, do poder público e do poder público-privado. O museu fora limpo no dia seguinte e organizado no sábado para reabrir na segunda-feira para o público. Clara ainda não acreditava no estava fazendo. Tinha o museu inteiro para sua família. Todas as luzes acesas, tudo ali dedicado a eles, em homenagem a seu filho que fazia cinco anos naquele dia. Em homenagem a Francisco que podia mostrar melhor o que fazia a sua família. Paredes firmes, piso reto e bem colocado, colunas e estruturas. E tudo aquilo para guardar arte, quadros, esculturas, objetos interativos, coisas que não se compreendia, mas era bonito de se olhar. Um mundo novo inteiro só para eles por duas horas. Esse era o combinado de Nelson com o chapa Luiz, que estava de plantão naquela manhã. Tinha tido a ideia e agendado com o amigo segurança antes de ser chamado por Francisco para o aniversário do menino. Mas quando soube que o garoto fazia aniversário, não resistiu. Andaram o museu todo de mãos dadas os quatro, Francisco, Clara, Gabriel e Maria. Logo na metade, os meninos do Nelson avançaram demais nos corredores e saletas, e as famílias acabaram se separando, a de Francisco e a do Seu Nelson. Combinaram de encontrar na saída. O silêncio agora dava forma a uma atmosfera desconhecida dos quatro. Francisco e Clara nunca haviam estado em um museu. Andaram juntos olhando cada peça, lendo cada texto e mesmo sem nada entender, pareciam seguir uma ritualística que aflorara ali, surgia em salas sem móveis,  decoradas apenas com objetos do que se chamava de arte e suas plaquinhas brancas informando o nome da peça, os materiais usados pelo artista, quem fez e o ano em que foi feita. Quem olhasse veria algo maior em processo de construção. Rostos assombrados com tantas formas e cores. Rostos delirantes com uma experiência que os marcaria para sempre com novas emoções e sentimentos, trazendo magia à vida, transformando aquelas pessoas por dentro. O resto do dia foi perfeito. À noite, quando Maria já tinha desmaiado fazia duas horas e Francisco colocava o pequeno e excitado Gabriel para dormir, ouviu do filho uma confirmação de que realmente eram pessoas diferentes a partir do dia em que a arte entrou em suas vidas. 
- Pai, já decidi o que eu vou ser quando crescer. Vou ser a mesma coisa que você. Vou ser artista.




Em breve... CAPÍTULO 2.  AUSÊNCIAS