O jejum é um voluntário de escola pública. Na ânsia de completar
sua missão, dada a ausência de centros de caridade conhecidos seus, aparece um
dia às 06:06 da manhã no portão da escola municipal. Faz frio, chove fininho, o
estômago encolhe de pesar pelas crianças sem casaco que serpenteiam à sua
direita: passam todas pelo portão, pisando na poça d’água. A dor que sente
revela o quão funda é a alma do voluntário da escola pública. Cansou de esperar
e precisa fazer alguma coisa. Mas não arredará o pé enquanto não conseguir
falar com alguém. Com qualquer um, com ninguém. Pode ser um servente, um
inspetor, uma atendente de lanchonete, uma professora, uma secretária, até uma
Diretora. Quer ser ouvida. Quer dividir a sua transcendência. Afinal, veio de
longe um pouco, com a melhor das intenções: doar-se. Ser humano é difícil, mas
ser voluntário é demais – e uma coisa é degrau para a outra e vice-versa. São
07:14. À espera, continua, mas nenhum sinal de que a atenderão. Parece que não
tem fim, mas tem. Bastaria ela irritar-se um pouco, levantar o queixo, abrir
bem os olhos e, ao adentrar a sala – qualquer sala, dizer que o que mais quer é
ser voluntária, mas que ninguém lhe dá a mínima. A olhariam perplexos, no
mínimo, sentindo um misto de estranheza e vergonha diante daquela que parece
ser a mais cândida das criaturas. Mas, não. Como mirará os olhos desses meninos
e meninas que brincam de estudar e estudam para depois brincar; não.
Sentiria-se liberta por um instante, mas provocaria o que já viu muitas vezes
acontecer nas melhores famílias do bairro. Provocaria mais um curto-circuito. E
curtos-circuitos não cheiram lá muito bem depois que o clarão passa. Fica no ar
um jeito de remendo, uma coisa que errada. Não se perdoaria, jamais. Chegara
tão perto de ser uma voluntária, de vestir a camiseta branca, alva de quem
nunca foi lavada. Ou até de quem foi muitas e tantas vezes lavada, dado que
serviu a outros voluntários predecessores. Já varrera chão, catara brinquedos,
lavara louça, limpara banheiros, assoara narizes, empilhara cadeiras,
requentara cafés. Não, não por tão pouco. Estava prestes a tornar-se imortal.
Pensou que não tinha muitos pecados na vida. Mas que aqueles que tinha,
iríam-se com o voluntariado. Sabia que nada poderia impedí-la uma vez que
permanecesse ali, sem arredar pés ou pestanejar. Tinha que conseguir e
conseguiria. As árvores agora balançavam e faziam notar a passagem do tempo com
as folhas que caiam amarelas. Até as folhas estavam amarelas, imagina ela que
tomara um copo de leite quente, antes de sair de casa, às 04h40 da manhã.
Estava esmaecida, a futura voluntária. Futura não! Bradou ela ao ouvir que
talvez não o viesse a ser, devido apenas a uma tecnicalidade chamada tempo.
Sim, o tempo. O tempo cura tudo. Nada mais a fazer, senão esperar. Nada mais a
reclamar, apenas coisas a consentir. Ninguém mais a aturar, apenas gente a
sorrir e ajudar. Queria ajudar faz tempo. Passam três senhoras, prováveis mães
de alunos da escola. Chegam enfeitadas e perfumadas. Pelos gestos e algumas
palavras entreouvidas, querem reclamar de coisas da escola. Talvez uma sala de
aula sem equipamento. Ou um banheiro sem o devido trato. Mais importante ainda,
uma indelicadeza de funcionário menos consciencioso de sua posição, dever e
missão. Anima-se, pois pode ser sua chance, finalmente. Avança, dribla uns dois
alunos de ensino médio, curvando-se para não esbarrar em suas mochilas e, já
quase no círculo da conversa, dispara – Com licença, posso ajudá-las? Sou
voluntária.
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