A
CERTEZA
A
certeza é um auditor da Receita Federal que dá aulas em cursinho público.
Outrora emérito consursado, hoje bastião do Estado. Uma espécie de Smith com
valores de Neo, mergulhado cada vez mais em bytes, crossings, checkings e
outras tecnologices, que nos levam a acreditar que não tem jeito, ele sempre
estará lá. Usa óculos, sorri apertado. Quer enxergar mais, não pode mostrar os
caninos ou correm. Acorda pontualmente às 05h05 – sem a necessidade de qualquer
artefato eletrônico para despertar. Desliga o despertador às 05h05’05” – é a
repescagem, uma espécie de plano de contingência fiscal do sono. Mal abre os
olhos e já está desperto. Se levanta, a coluna ereta, empertigada de razão.
Desliza sorrateiramente para não acordar a mulher ao seu lado – é a sua mulher,
mas naquele momento está mais para a mulher ao seu lado. O dever primeiro, a
família depois. Basta dizer que ela já foi pega na malha fina duas vezes: numa
casou-se com ele, pois o homem não desistia, na outra foi um recibo de médico
declarado errado. Impiedosamente, se esgueira pela beirada da cama e termina
por acessar o banheiro. Acende as luzes e se olha no espelho. Vê vários homens
– a começar pelo seu chefe, que está sempre a perguntar-lhe o que estamos ou
quem estamos esquecendo. Os outros homens são contribuintes delitosos ou em
vias de – ou seja, todos os contribuintes são, em princípio, delitosos. Escova
os dentes duas vezes – repescagem bactericida. Bochecha Listerine – tripla
proteção. Toma um banho quente. Desliga a água para ensaboar o corpo. Ensaboa
em ordem: o pescoço, os ombros, o tórax, braços, barriga, genitália, pernas e
pés. Lava as mãos. Com elas limpas, esfrega e leva nova dose de espuma ao
rosto. Lava a face, orelhas e nuca. Enxágua tudo diligentemente, sem deixar
resquícios. Ao final, coloca o xampú, lava os cabelos e os enxágua. A água
quente escalda a pele, mas nada sente – é feito de ferro. Queria se dizer de
aço, mas sabe que pode sucumbir a tentações. Para não sucumbir, se permite ser
de ferro – há humildade estratégica no homem de ferro. Seca o corpo, se
perfuma, se veste. Lê três jornais, dois de notícias, um terceiro de economia e
finanças. Bebe um grande copo d’água. Sai sem tomar café da manhã. Sua fome
pela manhã é outra. Informação e metas. Quer chegar rápido na sede da
inteligência operacional fiscal da cidade. No caminho, com o ar-condicionado no
dois, vai ouvindo rádios de notícias. Rádio 1. Rádio 2. Rádio 3. Rádio 4. Rádio
5. Entre um sinal e outro, lê e-mails no Iphone. Não responde, não dá tempo; é
ineficiente começar um e-mail e não enviá-lo ou sequer ler os outros. Dirige
com o banco alto e colado no volante. Deve estar preparado; fez curso de
direção defensiva com o Bope. Chega ao seu destino. A pasta 007 está ao lado,
no banco do carona. Antes de desligar o carro, dá uma pisada no acelerador, o
torque da máquina 3.0 faz um ronco grave e emborca o carro um pouco para a
direita. Sua inclinação era para a esquerda, mas sentiu-se compelido a ajustar
isso quando passou em 3º lugar para a Receita Federal. Abre a maleta. Papéis,
par de óculos sobressalente, agenda de couro, caneta e spray de menta. Pega o
tubo e lê ‘Mentol com própolis’. Há que cuidar da primeira impressão tanto
quanto de sua saúde institucional. Hoje haverá uma batida policial de madrugada,
com apoio da polícia e receita federais. Precisa estar com o instrumento
tinindo ou o timbre de sua anunciação não soará como deve. Não vê a hora de
adentrar uma mansão na Barra da Tijuca e afirmar com vontade e propriedade ‘Boa
noite, o senhor está preso por sonegação fiscal.’
Nenhum comentário:
Postar um comentário