A
abundância é uma criança de cinco anos apaixonada por dinossauros.
Objetivamente, não há motivos para tamanha dedicação. A questão é insolúvel: os
dinossauros não irão retribuir o amor incondicional do qual são instrumento de
manifestação. Porém, é ali, entre escamas, garras e dentes reinventados que
seus sentimentos se perpetuam; está seguro de que sempre haverá terreno
infinito para sua existência. As lojas? As lojas irão continuar exibindo
modelos até a exaustão do espaço infantil em casa. Basta mudar as cores.
Pronto, temos um dinossauro novo. Basta adicionar acessórios futurísticos.
Pronto, temos um dinossauro novíssimo. Basta encolher e colocar vários juntos.
Pronto, uma nova linha de produtos. Mas o maniqueísmo comercial da indústria
não afeta em nada a construção do caráter na criança de cinco anos. Engana-se o
marqueteiro industrial se pensa que a criança de cinco anos pode ser
eternamente ludibriada. Não, não pode. Ludibria-se o tal. Em verdade, ela se
aproveita de uma inocência um tanto despercebida do marqueteiro industrial.
Sinaliza que está à mercê de novidades, exibe sua real fragilidade e, enquanto
curte a infância, forma opinião – estuda calada a usurpadora intenção do
maniqueísmo industrial. Segue edificando futuro melhor enquanto brinca. Irá
querer trabalhar para uma empresa assim? Obsolescência programada,
descontinuidade arrolada, incompatibilidade anunciada. Sobram motivos para
fazer melhor. Articula novos tempos enquanto arquiteta membros em dorsos
espinhosos, olhos vidrados e perfis multiformes. Para poder interagir e
destacar-se a fim de suprir suas abundantes necessidades infantis –
especialmente junto às outras crianças de cinco anos – a criança de cinco anos
reproduz a própria escola de negócios. É o autodidatismo impetrado
instintivamente, semeando a promessa de fundar novas práticas, criar tempos
melhores que estes. A criança de cinco anos sabe todos os nomes científcos, as
diferentes eras da existência colossal e os individuais hábitos alimentares –
compreende a importância do conhecimento técnico aplicado, que é fonte de
prazer, tem potencialidade de inovação e serve como instrumento de poder.
Entende a cadeia alimentar, que o grande alimenta-se do pequeno, o mais apto
sobrevive confortavelmente, em detrimento porém – vai compreendendo o mundo
corporativo, conjugando observações e experiências, percebendo necessidades de
colaboração, ou terá que devorar amiguinhos no recreio para não ser devorada.
Indigestão moral. A criança de cinco anos tem um trunfo. O infinito. Acabou de
chegar faz cinco anos e um dia irá. Sabe que por mais que a depurem, será ainda
pura. Que tudo a ela pertence. Que nada pode detê-la. Que por contrato há que
merecer. Sai do banho, se deixa pentear, escova os dentes, se deixa trocar, se
olha no espelho. Já cheirando à colônia infantil, trajando pijama vincado de
algodão, se senta à mesinha de madeira. Abre o estojo, alinha o papel e começa
a fazer a lição do inglês. Já fareja e adora o que tem para jantar.
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