quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A ABUNDÂNCIA

A abundância é uma criança de cinco anos apaixonada por dinossauros. Objetivamente, não há motivos para tamanha dedicação. A questão é insolúvel: os dinossauros não irão retribuir o amor incondicional do qual são instrumento de manifestação. Porém, é ali, entre escamas, garras e dentes reinventados que seus sentimentos se perpetuam; está seguro de que sempre haverá terreno infinito para sua existência. As lojas? As lojas irão continuar exibindo modelos até a exaustão do espaço infantil em casa. Basta mudar as cores. Pronto, temos um dinossauro novo. Basta adicionar acessórios futurísticos. Pronto, temos um dinossauro novíssimo. Basta encolher e colocar vários juntos. Pronto, uma nova linha de produtos. Mas o maniqueísmo comercial da indústria não afeta em nada a construção do caráter na criança de cinco anos. Engana-se o marqueteiro industrial se pensa que a criança de cinco anos pode ser eternamente ludibriada. Não, não pode. Ludibria-se o tal. Em verdade, ela se aproveita de uma inocência um tanto despercebida do marqueteiro industrial. Sinaliza que está à mercê de novidades, exibe sua real fragilidade e, enquanto curte a infância, forma opinião – estuda calada a usurpadora intenção do maniqueísmo industrial. Segue edificando futuro melhor enquanto brinca. Irá querer trabalhar para uma empresa assim? Obsolescência programada, descontinuidade arrolada, incompatibilidade anunciada. Sobram motivos para fazer melhor. Articula novos tempos enquanto arquiteta membros em dorsos espinhosos, olhos vidrados e perfis multiformes. Para poder interagir e destacar-se a fim de suprir suas abundantes necessidades infantis – especialmente junto às outras crianças de cinco anos – a criança de cinco anos reproduz a própria escola de negócios. É o autodidatismo impetrado instintivamente, semeando a promessa de fundar novas práticas, criar tempos melhores que estes. A criança de cinco anos sabe todos os nomes científcos, as diferentes eras da existência colossal e os individuais hábitos alimentares – compreende a importância do conhecimento técnico aplicado, que é fonte de prazer, tem potencialidade de inovação e serve como instrumento de poder. Entende a cadeia alimentar, que o grande alimenta-se do pequeno, o mais apto sobrevive confortavelmente, em detrimento porém – vai compreendendo o mundo corporativo, conjugando observações e experiências, percebendo necessidades de colaboração, ou terá que devorar amiguinhos no recreio para não ser devorada. Indigestão moral. A criança de cinco anos tem um trunfo. O infinito. Acabou de chegar faz cinco anos e um dia irá. Sabe que por mais que a depurem, será ainda pura. Que tudo a ela pertence. Que nada pode detê-la. Que por contrato há que merecer. Sai do banho, se deixa pentear, escova os dentes, se deixa trocar, se olha no espelho. Já cheirando à colônia infantil, trajando pijama vincado de algodão, se senta à mesinha de madeira. Abre o estojo, alinha o papel e começa a fazer a lição do inglês. Já fareja e adora o que tem para jantar.

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